3 de jan de 2015

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE – Vida & Obra




  PEDRO LUSO DE CARVALHO

Carlos Drummond de Andrade disse a Homero Senna, em entrevista a ele concedida, para a Revista do O Jornal, em 19.11.1944 (In Revista das Letras, Rio de Janeiro, Gráfica Olímpica, 1968):
– Minha vida não tem interesse algum e o que nela pode haver de importante já contei em duas autobiografias que escrevi para a Revista Acadêmica e para Leitura. (...) nasci em Itabira, no ano de 1902, de pais burgueses que me criaram no temor de Deus. Meu pai era fazendeiro e embora fosse pessoa que nem sequer o curso primário possuía completo, tomava conta muito bem dos seus negócios e escrevia suas cartas com correção. Em Itabira passei minha meninice e ali fiz meus primeiros estudos. Depois estive em Belo Horizonte, no Colégio Arnaldo, e em Friburgo, com os Jesuítas. Primeiro aluno da classe, é verdade que mais velho que a maioria dos colegas, comportava-se como um anjo, tinha saudades da família e todos os outros bons sentimentos, mas expulsaram-me por “insubordinação mental”. A saída brusca do colégio teve influência enorme no desenvolvimento dos meus estudos e de toda minha vida. Casado, fui lecionar geografia no interior. Depois voltei para Belo Horizonte, onde passei a fazer jornalismo, tendo sido mais tarde levado para a burocracia por Mário Casassanta. Meu lugar efetivo é, mesmo, de redator do Minas Gerais, que é o jornal oficial do Estado. Desejando diplomar-me em alguma coisa (não fosse a interrupção dos meus estudos em Friburgo, eu seria bacharel em direito, como todo brasileiro) resolvi estudar farmácia. Não por qualquer inclinação especial, mas porque era o curso mais rápido, três anos apenas. E de fato sou farmacêutico, diplomado pela Escola de Belo Horizonte. Mas por que insistir nessas coisas?
Carlos Drummond de Andrade nasceu em 31 de outubro de 1902; foi o nono filho do casal Carlos de Paula Andrade e Julieta Drummond de Andrade–, que teve quatorze filhos – dos quais apenas seis sobreviveram; a mãe era dotada de a aguda sensibilidade; o pai, ao contrário, era homem prático e afeito ao trabalho do campo; embora fosse apaixonado pelo campo, também tinha a preocupação em dar conforto material à família; certa feita adquiriu no Rio uma banheira de esmalte, uma demasia para a cidadezinha; foi um dos vereadores que decidiram pela instalação de luz elétrica em Itabira.
O padrão de vida da família Andrade propiciaria avanços nos estudos do futuro poeta, que não esse sentia atraído pela vida do campo, o que desgostava seu pai, que tinha planos para que seus filhos mantivessem a propriedade com a família; e, na medida em que deixava de apreciar a vida no campo, distanciava-se do pai, o que levaria a criar uma barreira entre eles, que somente se atenuaria com o tempo e a distância.
No Grupo Escolar José Batista, onde começou a estudar, pode dar vasão as suas tendências literárias, chamando a atenção de seus professores com suas descrições; seu irmão, que estudava Direito no Rio, remetia-lhe livros; assim foi conhecendo autores, mesmo que de forma irregular, entre eles os poetas portugueses Fialho de Almeida e Antônio Patrício, os nossos simbolistas e os franceses, entre eles Flaubert; lia também romances de capa e espada que lhes emprestava o santeiro Alfredo Duval; mais tarde, entrou em contato com a obra de Machado de Assis, que passou a ser para ele, no Brasil, a sua maior admiração literária; achava que não teríamos significação literária se Machado não existisse; leu Euclides da Cunha apenas por obrigação, não o comovendo “sua pompa nem sua bravura estilística”.
Ingressou no Grêmio Literário e Dramático Arthur de Azevedo aos treze anos – como a idade mínima para ingressar era de quinze anos, os estatutos foram mudados para permitir seu ingresso; teve a oportunidade de pronunciar uma conferência sobre a Descoberta da Américas, na qual contou com a presença de seu pai; embora se sentisse decepcionado pelo fato de não vê-lo seguindo os seus passos, sentiu-se envaidecido com os triunfos literários do filho; em 1916, foi matriculado no Colégio Arnaldo, de Belo Horizonte; estava então com quatorze anos de idade; foi nesse colégio que conheceu Gustavo Capanema e Afonso Arinos; continuaria amigo de ambos ao longo da vida; aí não ficou mais que seis meses, já que, por motivo de saúde, retornaria para casa, onde permaneceria inativo por algum tempo; depois, com o consentimento do pai, passou a trabalhar como caixeiro numa loja de Itabira, onde permaneceu por oito meses.
Dois anos depois (1918), o pai fez a matrícula do filho no Colégio Anchieta, dos padres jesuítas, em Friburgo; os fatos ocorridos aí foram narrados pelo poeta na entrevista que concedeu a Homero Senna, cujo trecho encontra-se transcrito acima; mais tarde, passou a viver em Belo Horizonte; os novos amigos que fez Emílio Moura, Milton Campos, Abgar Renault, Gustavo Capanema, João Alphonsus, Aníbal Machado, ajudaram-lhe a adquirir confiança; talvez sua memória tenha guardado mais essas amizades que seus primeiros sucessos literários.
Anos depois, recordará com ternura o tempo em que a literatura aos poucos passou a tomar parte de seu tempo e dos primeiros trabalhos publicados, como ocorreu com José do telhado, conto que foi premiado na Novela Mineira, pelo qual recebeu cinquenta mil-réis; o terreno estava preparado para colaborar em jornais e revistas, com artigos de crítica, contos, poemas em prosa; os amigos, no entanto, não acolheram bem o único soneto que tentou fazer; em entrevista que concedeu mais tarde, disse: “Por preguiça ou por qualquer outro motivo obscuro derivei para o modernismo”.
Quando seus poemas já formavam um pequeno volume, procurou publicá-lo por intermédio de Ronald de Carvalho na livraria Leite Ribeiro, no Rio; tratava-se de uma coletânea de poemas em prosa com o título de Teia de aranha, que, para sorte do poeta, como afirmou mais tarde, o original foi extraviado pela livraria; o segundo livro, com o título de 25 Poemas da triste alegria, obra inédita, que teve o mesmo destino que o primeiro, passou a integrar o arquivo de Rodrigo M. F. de Andrade.
Quando o poeta foi ao Rio, pela primeira vez, em 1923, encontrou-se com Álvaro Moreyra, que não o conhecia, na redação de Para Todos, onde também se encontravam os pintores Oswaldo Teixeira e Di Cavalcanti; de volta a Belo Horizonte, somente voltaria a visitar o Rio no ano de 1933.
Casou-se quando era ainda estudante, em 1925, com Dolores Morais Drummond de Andrade, de quem teve um filho em 1927, que morreu logo depois de hidrocefalia; no ano seguinte, nasceu Maria Julieta – Drummond passaria a canalizar o melhor de sua afeição para a filha, que anos depois se casaria e iria morar na Argentina; teria dois filhos e morreria de câncer um mês antes da morte do poeta.
Para satisfazer o pai, que o queria ver formado, graduou-se em Farmácia, profissão que nunca chegaria a exercer; em 1926, já casado, voltou a Itabira, onde passou a lecionar por pequeno espaço de tempo; logo deixou Itabira com destino a Belo Horizonte, atendendo o convite para trabalhar no Diário de Minas; no Diário de Minas foi redator-chefe; o jornal tinha a orientação governista, que com sua orientação acabaria se transformando, com João Alphonsus, Emílio Moura, Martins Almeida e, posteriormente, Cyro do Anjos, em reduto do modernismo mineiro.
Sua vida tomaria novo curso em 1929, exercendo cargo na Secretaria de Educação; em 1930 foi para Secretaria do Interior, inicialmente com Cristiano Machado (três meses) posteriormente, Gustavo Capanema (três anos); à noite, trabalhava no Diário de Minas, e depois no Minas Gerais (órgão oficial do Governo); trabalhou também em jornais dos Diários Associados.
Drummond acompanhou Gustavo Capanema quando este foi para o Rio, trabalhando com ele até 1945, quando se demitiu da Secretaria do Interior por questões políticas; nesse mesmo ano foi diretor da Tribuna Popular com Álvaro Moreyra e outros, aí permanecendo apenas por três meses; pouco tempo depois, graças a intervenção de Rodrigo M. F. de Andrade e de Gustavo Capanema, foi trabalhar na Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, onde chefiará a Seção de História, na Divisão de Estudos e Tombamentos, do Ministério da Educação; ficará no cargo até 1962, e será aposentado após completar 35 anos de serviço público.  
A sua estreia em livro foi com Alguma Poesia, em 1930; livros posteriores: Brejo das Almas (1934), Sentimento do Mundo (1940), A Rosa do povo (1945), Claro enigma (1951), Fazendeiro do ar e Poesia até agora – edição de 1959, que abrange A Vida passada a limpo, livro inédito, que depois reaparece sob o título de Poemas– Antologia poética e Lição de coisas (1962), Boi-tempo (1968), Reunião (1969) – toda sua obra poética reunida, sem incluir Boi-tempo –, com apresentação de Antônio Houaiss; Impurezas do tempo (1973), entre outros.
Seus livros em prosa: Confissões de Minas (1944), Contos de aprendiz (1951), Passeios na ilha (1952), Versiprosa (1967) Amendoeira (1957), A bolsa & a vida (1962), Cadeira de balanço (1966), Caminhos de João Brandão (1970), O poder ultrajovem (1972); Menino antigo (1973), De notícias & não notícia faz-se a crônica (1974), Boca de luar (1984), entre outros.
No rio de Janeiro, Carlos Drummond de Andrade tornou-se tradutor e cronista; escreveu suas crônicas para o Correio da Manhã e depois para o Jornal do Brasil, onde permaneceu por quinze anos.
O poeta era caseiro, viajava pouco (exceção feita quando viajou para Buenos Aires, Argentina, para visitar a filha), não fazia vida social (dizia que por não ser conversador, sua presença aborreceria os outros, o que preferia evitar).
No que dizia respeito aos seus livros, não tinha preferências por nenhum deles (não considerava que tinha uma obra – pelo menos a obra que desejava). Dizia que seus livros são um ajuntamento de poemas, estudos poéticos que passa para o papel; não o resultado de uma vida literária. É possível que seus livros o satisfizessem por sentir que às vezes consolavam os outros, possivelmente pelo desencanto ou pela autenticidade, o que o confortava.
Carlos Drummond de Andrade, que ao lado de João Cabral de Melo Neto e Manoel Bandeira formava, segundo a crítica, o grande trio da poesia brasileira contemporânea, faleceu na cidade do Rio de Janeiro no dia 17 de agosto de 1987, aos 85 anos incompletos, de problemas cardíacos – doze dias depois que sua querida filha Maria Julieta morreu de câncer, em Buenos Aires.
 Sobre a morte do poeta, destacamos o que disse Ziraldo, em documentário para vídeo:
– No velório ninguém entrou na sala, não sei por que; os meninos... Todo mundo fora, e só a família lá dentro. Os netos ficaram na porta e não deixaram ninguém entrar. Aí eu tive com Dolores, sentado com ela, a noite inteira. Aí, ela caladinha, muito tímida (ela era muito bonitinha, quando moça; pelas fotos dava pra ver que era bonitinha); aí se virou e disse: “Ziraldo, o Drummond tinha razão em ter morrido, né?” Aí perguntei por que, e ela disse: “Morreu a única razão que ele tinha pra viver.” [Ante essa resposta de Dolores, exclamou Ziraldo: “Tadinha...”].
Escolhemos, para encerrar este trabalho, um trecho de “Fragmento sobre Carlos Drummond de Andrade”, escrito pelo renomado crítico literário Otto Maria Carpeaux (In, O Jornal, Rio de Janeiro, 10 out. 1941):
Quero dizê-lo, com toda franqueza, que o encontro com a poesia de Carlos Drummond de Andrade me foi um conforto nas trevas, e que eu, que conhecia todas as poesias do mundo e experimentava todas as desgraças do mundo, compreendo agora melhor o sentido de uma longa viagem. Muito pereceu e muito mais perecerá. Mas “o presente é tão grande, não nos afastemos”; acompanhados de certas palavras, certos versos que não se vão esquecer, como bons companheiros. Não olhemos para trás. Vamos de mãos dadas. O esforço poético de Carlos Drummond de Andrade continua.


REFERÊNCIAS:
PEREZ, Renard. Escritores Brasileiros Contemporâneos. Escritores Brasileiros Contemporâneos. I série, 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1960.
SENNA, Homero. PEREZ, Renard. Carlos Drummond de Andrade. Coletânea organizada por Sônia Brayner. Direção de Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2ª ed., 1977.
JCV. Jornalismo, Cinema Vídeo. Mondale Filmes, s/d.
CARPEAUX, Otto Maria. Fragmento sobre Carlos Drummond de Andrade. Coletânea organizada por Sônia Brayner. Direção de Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2ª ed., 1977.


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