7 de dez de 2014

GRACILIANO RAMOS – Vida & Obra



– PEDRO LUSO DE CARVALHO

GRACILIANO RAMOS (Graciliano Ramos de Oliveira) nasce a 27 de outubro de 1892, em Quebrangulo, pequena cidade do interior de Alagoas. No ano seguinte, a família muda-se para Buíque, zona de indústria pastoril, no interior de Pernambuco, onde reside por alguns anos – em Buíque, Graciliano frequenta a primeira escola. Daí, a família muda-se para Viçosa, zona açucareira do interior de Alagoas. De Viçosa, muda-se para Maceió, onde frequenta um fraco colégio. Aos 18 anos, vai morar em Palmeiras dos Índios, no interior de seu Estado natal.  
As mudanças sucessivas da família pelo interior do Nordeste, no período de 1894 a 1914, deveram-se ao temperamento instável do pai de Graciliano; ligado à família de fazendeiros, Sebastião Ramos de Oliveira passou a exercer o comércio com loja de tecidos em Palmeiras dos Índios. No livro memorialista, Infância, o escritor descreve essas andanças que fez com a família, seus estudos em escolas de má qualidade, e os maus tratos que sofria tanto do pai como da mãe, Maria Amélia Ferro Ramos. Graciliano foi o primeiro, dos 16 filhos do casal.
Em 1914, com 22 anos, Graciliano realiza sua primeira viagem ao Rio de Janeiro, onde trabalha como “foca” de revisão. Nos jornais Correio da Manhã e O Século trabalha apenas quando substitui o revisor titular. Chega a revisor efetivo no jornal A Tarde, que surgiu para defender Pinheiro Machado. No Rio do princípio do século 20, o jovem mora em pensões no Largo da Lapa, Maranguape e Riachuelo, bairros boêmios, que abrigavam meretrizes e desordeiros.
Deixa o Rio, em 1915, depois de sua permanência por um ano, e retorna a Palmeira dos Índios, não apenas por ter deixado lá um caso sentimental, mas também porque sua família estava sendo dizimada pela peste bubônica, que matou três irmãos e um sobrinho. Graciliano fixa-se então em Palmeiras dos Índios, local de onde iria extrair cenários e tipos para seus romances.
Em outubro desse ano 1915 Graciliano casa-se com Maria Augusta Barros, com quem viria ter quatro filhos, e que faleceria em 1920. Estabelece-se com loja de fazendas, a mesma que fora de seu pai. Além do comércio, dedica-se ao jornalismo local. Em 1928, casa-se novamente, com Heloísa Medeiros, no mesmo ano em que termina Caetés, e que é eleito prefeito de Palmeira dos Índios – exonera-se do cargo em 1930, dois anos depois de sua posse.
Graciliano torna-se conhecido por dois relatórios, escritos em estilo literário, nos quais dá conta de sua administração ao Governador do Estado. Ambos os relatórios, publicados no Diário Oficial, foram lidos pelo escritor e editor Augusto Frederico Schmidt, que se surpreendeu pela boa qualidade da redação a ponto de comentar com um amigo, que o seu autor deveria ter algum livro escrito. Schmidt estava certo, Graciliano já havia terminado Caetés.
Nesse ano de 1930, Graciliano muda-se para Maceió para exercer o cargo de diretor da Imprensa Oficial do Estado, onde ficou até dezembro de 1931; demite-se por não suportar mais os interventores militares. Retorna para Palmeiras dos Índios e dedica-se, entre outras coisas, aos seus romances. Mais tarde aparecem Caetés (1933) e São Bernardo (1934).
Na entrevista concedida a Homero Senna, Graciliano diz que escreveu São Bernardo na sacristia de uma igreja, em Palmeira dos Índios, e que escrevia o capítulo XIX com febre, quando foi hospitalizado para tratar de uma grave psoíte – inflamação do músculo psoas. As impressões que lhe ficaram do hospital tentou fixar em dois contos Paulo e O relógio do hospital, e no último capítulo de Insônia, seu livro de contos. Convalesce no hospital em janeiro de 1933, quando recebe a notícia de sua nomeação para Diretor da Instrução Pública.
No dia 3 de março de 1936, Graciliano é preso, sem qualquer explicação, e remetido para Recife, onde, por dez dias, fica incomunicável. Na época, o escritor estava com 44 anos. Em entrevista concedida a Homero Senna, conta como se deu sua prisão: (...) “Depois fui metido no porão do ‘Manaus’ e vim para cá. Tive dez ou doze transferências de cadeia”. Senna pergunta qual o motivo de sua prisão: “Sei lá! Talvez ligações com a Aliança Nacional Libertadora, ligações que, no entanto, não existiam. De qualquer maneira, acho desnecessário rememorar essas coisas, porque tudo aparecerá nas memórias da minha prisão, que estou compondo”. (Memórias do Cárcere teve publicação póstuma, 1953, pela José Olympio.)
Graciliano é posto em liberdade em 1937. Depois, decide fixar sua residência no Rio de Janeiro, onde passa a trabalhar na imprensa. No ano seguinte (1938) dá-se a publicação de Vidas secas. Em 1939 é nomeado Inspetor Nacional de Ensino. Em 1945, passa a integrar o Partido Comunista Brasileiro; nesse ano, publica Infância, livro de memórias. Trabalha no Correio da Manhã, com a função de corrigir a gramática dos repórteres e noticiarista (o que hoje se chama copy-desk).
Livros escritos por Graciliano Ramos, alguns deles publicados em mais de 100 países: (romances) Caetés, 1933; São Bernardo, 1934; Angústia, 1936; Vidas Secas, 1938; Histórias Completas, 1946; Brandão entre o mar e o amor, escrito com Jorge Amado, José Lins do Rego, Aníbal Machado e Rachel de Queiroz, 1942; (memórias) Infância, 1945; Memórias do cárcere, 1953 (quatro volumes, póstuma); Memórias agrestes, 1967 (póstuma); (impressão de viagem) Viagem, visita do escritor a Tchecoslováquia e URSS, 1954 (póstuma); (contos) Histórias incompletas, 1946; Insônia, 1947; Dois dedos, 1945; (contos infanto-juvenis) A Terra dos meninos pelados, 1939; Histórias de Alexandre, 1944; Alexandre e outros heróis, 1962; (póstuma); O Estribo de prata, 1984 (póstuma); (crônicas) Linhas tortas, 1962 (póstuma);Viventes das Alagoas, 1962 (póstuma); (Correspondência) Cartas, 1980 (póstuma); Cartas de amor à Heloísa, 1992 (póstuma); (textos inéditos) Garranchos, 2012 (póstuma); (traduções) Memórias de um negro, de Booker T. Washington, Cia. Editora Nacional, 1940; A peste, de Albert Camus, José Olympio, 1950.

          Sobre a obra do escritor, ensina o mestre Antônio Cândido: “A composição da obra de Graciliano Ramos resulta de um processo rigorosamente seletivo e subordinado essencialmente aos limites da experiência pessoal, notadamente sertaneja”. Diz mais: “Compõem-se de aspectos da paisagem do Nordeste agreste, das zonas agropecuárias, em ligação com pequenos centros urbanos”.
Algumas anotações sobre os principais romances de Graciliano Ramos: em Caetés o escritor já se mostra preocupado com a brevidade de seu texto, procurando dizer apenas o necessário para a obtenção do resultado pretendido; em São Bernardo, consegue aprimorar essa técnica, que vai ao encontro de sua vocação para a brevidade; em Angústia a narrativa também é na primeira pessoa, mas inova com o monólogo interior, e um novo elemento aparece, qual seja, a evocação autobiográfica, na qual por vezes é associada com coisas vistas e com o cotidiano; em Vidas secas o escritor adota o gênero intermediário entre o romance e o conto, abandona a narrativa na primeira pessoa e o diálogo; as cenas e episódios são mais ou menos isolados, mas no seu contexto adquirem sentido pleno; há unidade no romance, como preleciona Antônio Cândido.
Algumas notas sobre os livros de contos de Graciliano Ramos: o escritor teve contos publicados em jornais, no Brasil e na Argentina, que depois foram reunidos em livro, com o título de Histórias incompletas, publicado pela Livraria do Globo, em 1946. No ano seguinte, 1947, a obra foi editada com o título de Insônia, pela José Olympio, depois de ter passado por uma reorganização, com a supressão de fragmentos de livro e com acréscimos.
Algumas linhas sobre as duas principais obras memorialistas de Graciliano Ramos: em Infância, livro no qual “O narrador se encarrega de nos ensinar algumas das razões da cadeia necessária de sofrimentos”, como diz Antônio Cândido. Diz mais: “Os castigos imerecidos, as maldades sem motivo, de que são vítimas os fracos, estão à base da organização do mundo”. Em Memórias do Cárcere deparamo-nos com o universo adulto, como diz o mestre Cândido: “O adulto se empenha nas coisas do século, é o preso jogado dum canto para outro e desce a fundo na experiência dos homens. O resultado principal parece ter sido a compreensão de que estes são mais complicados e muito mais esfumada a divisão sumária entre o bem e o mal”.
Alguma curiosidade sobre o “velho Graça”, como era carinhosamente chamado pelos amigos: Graciliano Ramos não se limitava a fazer consultas a dicionários, estudava-os com afinco; não fazia visitas, não ia a concertos nem conferências, e não gostava de música; tinha o hábito de ir diariamente à Livraria José Olímpio, na rua do Ouvidor, centro do Rio, e ficava lá várias horas, num banco que era quase propriedade sua, localizado no fundo da loja.
Na obra de Graciliano Ramos prevalece o psicológico, mas não se quer dizer com isso que tal prevalência diminua a importância do social. Quanto ao julgamento crítico sobre a obra do escritor não divergem nomes importantes da crítica literária brasileira. Não há concordância, no entanto, no que diz respeito à sua obra-prima: para uns é Angústia, para outros é Vidas secas.
Transcrevemos, a seguir, alguns depoimentos críticos sobre a obra de Graciliano Ramos:
ANTÔNIO CÂNDIDO: O romancista intuiu admiravelmente a condição sub-humana do caboclo sertanejo, com sua consciência embotada, a sua inteligência retardada, as suas reações devidas a reflexos condicionados por um sofrimento secular, por sua vez determinado pelas relações do homem com a própria paisagem e pela passividade ante os mais poderosos. Desta maneira, ao investigar o sentido de um destino coletivo, ele nos dá realmente a medida do homem telúrico no seu estado primário, autômata e passivamente indiferente, nivelando-se com animais, árvores e objetos. Esse protótipo e essa condição infra-humana aparecem no primeiro ou no segundo plano de quase todos os seus livros. A eles se sobrepõe um outro tipo de sertanejo, de sentimento trágico e fatalista, que pensa friamente e age com determinação inabalável, enquanto aceita como inevitável os fatos consumados.
ASTROJILDO PERIRA: Graciliano Ramos nos oferece um exemplo de primeira ordem de como o regionalismo e o universalismo não são incompatíveis – pelo contrário! Tudo nos seus romances, personagens, ambientes, pessoas e coisas, tudo quanto há neles de vivo e de inerte se acha impregnado de regionalismo, vincado e marcado de Nordeste brasileiro (...). Mas há em tudo, como o próprio sangue que dá vida a tudo, uma força motriz de essência universal: a substância humana. Por outras palavras: o corpo é regional, mas a alma é universal.
OTTO MARIA CARPEAUX: É um clássico. Mas – contradição enigmática – é um clássico experimentador. A estreia excepcionalmente tardia, com mais de quarenta anos, deve ter sido precedida de vagarosos preparativos dum experimentador, e mesmo depois continuou sempre a experimentar. O nosso comum amigo Aurélio Buarque de Holanda chamou-me a atenção para a circunstância de representar cada uma das obras de Graciliano Ramos um tipo diferente de romance. Com efeito; Caetés é dum Anatole ou Eça brasileiro; São Bernardo é digno de Balzac; Angústia em algo de Marcel Jouhandeau, e Vidas Secas, algo dos recentes contistas norte-americanos. Graciliano faz experimentos com a sua arte; e como o ‘mestre singular’ não precisa disso, temos aí um indício certo de que está buscando a solução dum problema vital.
ÁLVARO LINS: A prosa do Sr. Graciliano Ramos é moderna, no seu aspecto desnudado, no vocabulário, no gosto das palavras e das construções sintéticas, e é clássica pela correção, pelo tom como que hierático das frases. O que o valoriza, propriamente não é a beleza, no sentido hedonístico da palavra, mas a sua precisão, a sua capacidade de transmitir sensações e impressões com um mínimo de metáforas e imagens, quase só com o jogo e o atrito dos vocábulos, principalmente dos adjetivos.
CARLOS NELSON COUTINHO: A obra romanesca de Graciliano Ramos abarca o inteiro processo de formação da realidade brasileira contemporânea, em suas íntimas e essenciais determinações. Nada existe nele em comum com aquele estrito regionalismo, que foi uma das manifestações brasileiras do naturalismo “sociológico”, O destino de seus personagens, seu modo de agir e de reagir em manifestações típicas de toda a realidade brasileira. No “regional”, a Graciliano, interessa apenas o que é comum a toda a sociedade brasileira, o que é “universal”. Mas não um universal abstrato e absoluto, pretensamente válido em toda e qualquer circunstância; a universalidade de Graciliano é uma universalidade concreta, ela se alimenta e vive da singularidade, da temporalidade social e histórica. O que lhe interessa não é a exemplificação, através da literatura, de teses e concepções apriorísticas:  é a narração de destinos de homens concretos, socialmente determinados, vivendo em uma realidade concreta. Por isso, ele pode descobrir e criar verdadeiros tipos humanos, diversos tanto da média cotidiana como da caricatura abstrata.
Em 1952, Graciliano Ramos baixa hospital na capital da Argentina, Buenos Aires, para se submeter a uma cirurgia para a extração de tumor cancerígeno no pulmão, mas não obtém êxito. De volta ao Rio de Janeiro, é internado em hospital e morre no dia 20 de março de 1953, aos 60 anos de idade. Deixa a mulher Heloísa, com quem teve um casal de filhos, um deles o escritor Ricardo Ramos. (Maria Augusta, sua primeira esposa, deu-lhe quatro filhos.)


REFERÊNCIAS:
CÂNDIDO, Antônio. CASTELLO, José Aderaldo. Presença da Literatura Brasileira. Modernismo. 9ª ed. São Paulo: Difel, 1983.
LIMA, Alceu Amoroso. CORRÊA, Roberto Alvim. SENA, Jorge de. Nossos Clássicos. Graciliano Ramos. Trechos Escolhidos. Rio de Janeiro: Agir, 1961.
LINS, Álvaro e Aurélio Buarque de Hollanda. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1966.
CÂNDIDO, Antônio. Ficção e Confissão. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1956.
SENNA, Homero. COUTINHO, Carlos Nelson. Revisão do Modernismo. Graciliano Ramos; Coletânea organizada por Sônia Brayner. Direção de Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2ª ed., 1978.
GONZAGA, Sergius. Curso de Literatura Brasileira. Porto Alegre: Editora Leitura XXI, 2004.


  
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