16 de jul de 2013

[Poema em prosa] CHARLES BAUDELAIRE – O estrangeiro




[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


CHARLES BAUDELAIRE nasce em Paris no dia 9 de abril de 1821. No ano de 1846 começa sua carreira de crítico de arte, com Salon de 1845, e, em seguida, com a publicação de Salon de 1846. Seu livro maior, Flores do mal, é publicado em 1857.  Acometido de sífilis, Baudelaire morre a 31 de agosto de 1867.

É bom que se diga que o livro Flores do mal, de Charles Baudelalire, contém cem poemas, sendo que dentre eles um número grande de sonetos; o texto mais longo não ultrapassa cem versos. Sobre a poesia de Baudelaire, assim escreveu ThéophileGautier: “A poesia de Baudelaire, profundamente imagética, vivaz e viva, possui em alto grau essas qualidades de intensidade e de espontaneidade que peço ao poeta moderno”. Diz mais, Théophile Gautier (1811-1871):

Ele possui tons raros, e que são graças, da evocação e da penetração. Sua poesia, concisa e brilhante, impõe-se ao espírito como uma imagem forte e lógica. Quer evoque a lembrança, quer enflore o sonho, quer tire da miséria e dos vícios do tempo um ideal terrível, impiedoso, a magia é sempre completa, a imagem abundante e rica prossegue sempre e rigorosamente em seus termos.

Segue O estrangeiro, poema em prosa de Charles Baudelaire (in Baudelaire, Charles. Pequenos poemas em prosa / edição bilíngue. Tradução de Gilson Maurity. Rio de Janeiro: Record, 2009, p.19):



O ESTRANGEIRO
( Charles Baudelaire )



A quem mais amas tu, homem enigmático, dize: teu pai, tua mãe, tua irmã ou teu irmão?

– Eu não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.

– Tens amigos?

– Você se serve de uma palavra cujo sentido me é, até hoje, desconhecido.

– Tua pátria?

– Ignoro em qual latitude ela esteja situada.

– A beleza?

– Eu a amaria de bom grado, deusa e imortal.

– O ouro?

– Eu o detesto como vocês detestam Deus.

– Quem é então que tu amas, extraordinário estrangeiro?

– Eu amo as nuvens... as nuvens que passam lá longe... as maravilhosas nuvens!



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REFERÊNCIA:
GAUTIER, Théophile. Baudelaire. Tradução de Mário Laranjeira. São Paulo: Boitempo Editorial, 2001, p. 119.



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