17 de jun de 2013

[Literatura] VIRGINIA WOOLF – Tormento e Genialidade


  
– PEDRO LUSO DE CARVALHO 
  
No dizer de Harold Bloom, Virginia Woolf “foi a mais completa pessoa-de-letras da Inglaterra de nosso século”. Já no que diz respeito à qualidade de sua crítica, ressalta Bloom: “A crítica literária da própria Virginia Woolf me parece muito confusa, sobretudo no julgamento de contemporâneos. Encara Ulisses de Joyce como um desastre, ou os romances de Lawrence como não tendo poder final que faz as coisas inteiras em si”.
Harold Bloom dá realce ao fato de que os ensaios e romances de Virginia Woolf “alargam até as tradições centrais da literatura inglesa em aspectos que renovam além de todo possível alcance de suas polêmicas”. Tais observações, feitas pelo crítico norte-americano, que integram seu livro O Cânone Universal, devem-se a análise que faz sobre o romance Orlando, de Virginia.
Sobre o amor que a escritora inglesa nutria pela leitura, Harold Bloom diz, no seu ensaio, intitulado: ‘Orlando’ de Virginia Woolf: Feminismo como Amor à Leitura: “Talvez tenha havido outros escritores em nosso século que amassem tanto a leitura como Virginia Woolf, mas ninguém desde Hazlitt e Emerson expressou essa paixão de modo tão memorável e proveitoso quanto ela”. Bloom menciona que “O amor, em Orlando, é sempre o amor à leitura, mesmo quando disfarçado de amor por uma mulher ou homem”.
Já no que diz respeito ao romance de Virginia Woolf, há no ensaio de Harold Bloom, acima mencionado, um trecho que merece ser destacado por sua relevância histórica, qual seja: “Encontraremos algum dia romancistas tão originais e soberbas como Jane Austen, George Eliot e Virginia Woolf, ou uma poeta tão extraordinária e inteligente como Emily Dickinson? Meio século após a morte de Virginia, ela não tem rivais entre romancistas ou críticas, embora elas desfrutem da liberdade que ela profetizou”.
Também Mario Vargas Llosa, extraordinário romancista e crítico, no seu livro A verdade das mentiras, ocupou-se do romance de Virginia Woolf, no seu ensaio, Mrs. Dalloway, Virginia Woolf, A vida intensa e suntuosa: “O livro apareceu em 1925 e foi o primeiro dos três grandes romances – os outros são Rumo ao farol e As ondas – com os quais Virginia Woolf revolucionaria a arte narrativa de seu tempo, criando uma linguagem capaz de fingir persuasivamente a objetividade humana, os meandros e os ritmos escorregadios da consciência. Sua façanha não é menor que as similares de Marcel Proust e James Joyce, as quais complementa e enriquece com um matiz particular: a sensibilidade feminina”.
Na sua análise sobre o romance Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, Vargas Llosa faz referência ao tema que predomina a temática da escritora, a condição da mulher, com papéis tão insignificantes durante a história, por não terem, as mulheres, dinheiro e um teto para si, tornando-se dependente do homem: “Em Mrs. Dalloway, a realidade tinha sido reinventada a partir de uma perspectiva, na qual expressam, não exclusiva, mas, principalmente, a idiossincrasia e a condição da mulher”.
Virginia Woolf, em cujo registro civil consta a assento do nascimento de Adeline Virginia Stephen, a 25 de janeiro de 1882, em Londres, Inglaterra, sendo a terceira de quatro filhos, de uma família de classe média alta. O pai, Leslie Stephen, descendia da aristocracia intelectual da Inglaterra vitoriana. Foi crítico e o primeiro editor Dictionary of National Biography. Virginia não recebeu educação formal, mas cresceu cercada por livros e intelectuais. Por sua primeira residência passaram visitantes ilustres como Henry James, George Eliot, Henri Lewes. Talvez essa convivência tenha influenciado Virginia, ainda criança, a tornar-se escritora.
Os biógrafos de Virginia Woolf dão ênfase a distinção de dois tipos de marcos, quais sejam, seus livros e suas depressões. No dizer de Alexandra Lemasson, “Uma classificação simplificadora contribuiu para alinhá-la entre os escritores difíceis”. Para Lemasson, “Os mitos têm uma vida dura. No inconsciente coletivo, Virginia Woolf permanece uma mulher passiva e suicida, cuja companhia literária não é nada simpática”.
No ano de 1913, Virginia Woolf sofre a sua primeira depressão. Tal depressão vem na sequência de seu casamento com Leonard Woolf. Na verdade, vem de muito tempo os distúrbios que incapacitam Virginia Stephen. Diz Alexandra Lemasson: “Se, em setembro de 1913, Virginia – tendo há pouco se tornado sra.Woolf – faz uma tentativa de suicídio por ingestão massiva de barbitúricos, ela já tinha, há muito tempo, chamado a atenção para o seu estado”.
Nos anos que se seguem, após o casamento com Virginia, Leonard Woolf demonstra toda a sua capacidade de dedicar-se a esposa. A saúde mental de Virginia Woolf mostra-se mais debilitada: alucinações, agressividade, incapacidade para alimentar-se. As dificuldades multiplicam-se para ela e para o marido, a cada ano que passa. Leonard conforma-se com todas as dificuldades que enfrenta para ajudar Virginia. Leonard passa a ser, além de marido, editor, enfermeiro e tutor.
A vida sexual do casal sempre contou com o pouco interesse que Virginia tinha por Leonard, mesmo antes do casamento. Na lua-de-mel, que passaram na Espanha, ela dedica boa parte do seu tempo para a leitura autores russo. Na realidade, Virginia sentia-se atraída por mulheres. Segundo Quentin Bell, “Madge Symonds foi a primeira mulher a capturar seu coração”. Alexandra Lemasson diz: “É nas relações com mulheres mais velhas que Virginia encontra geralmente estímulo erótico e um reconforto materno”.
Quanto aos relacionamentos com mulheres, Alexandra Lemasson, diz, depois de fazer menção a quatro delas: “Nenhuma dessas relações durará muito tempo, com exceção da que Virginia tem com Violet Dickinson. Ao lado dessa mulher – frisa Lemasson – Virginia encontra não apenas um substituto materno, mas também um guia literário. Depois de Violet – acrescenta – de quem Virginia se desvencilhará assim que ela não lhe for mais indispensável, a romancista só se interessa por mulheres que dividam sua paixão pelas letras. Em 1919, sua relação com a romancista Katherine Mansfield chega a seu auge”.
Depois da morte de Katherine, em 1922, Virginia conhece a jovem Vita Sackville-West, uma jovem romancista de porte masculino, cuja homossexualidade ninguém ignora. Vita é casada com o brilhante diplomata Harold Nicolson, que, por sua vez, não esconde da mulher sua homossexualidade. No início do relacionamento, Virginia não se apaixona por Vita. Em 1926, a relação entre elas toma um rumo mais apaixonado, mas não chega a ameaçar seus casamentos. No plano sexual, o casamento de Virginia é um verdadeiro fracasso. Depois de algum tempo, outras mulheres atraem a atenção de Vita, o que ocasiona grande sofrimento para Virginia.
Alexandra Lemasson discorre sobre essa relação: “É Vita quem falará a Virginia daquela que será sua última grande amiga. Em 1930, Ethel Smyth tem quase 72 anos, mas parece estar, como sempre, em sua melhor forma. Virginia tem 48 anos, mas já se sente velha. No mundo das letras como no da música, uma e outra são personalidades conhecidas. Se Virginia Woolf é admirada e um pouco temida, zombam abertamente da chamada Dama Ethel. É uma mulher sozinha, uma compositora, ridicularizada, por seu comportamento excêntrico e seu porte singular”.
A amizade entre Ethel e Virginia não resiste ao choque causado pela forma com que elas levam em frente suas lutas em favor dos direitos que defendem em prol da mulher no plano social, econômico e político. Quando Ethel pede o apoio a uma questão que defendeu em praça pública, Virginia se recusa categoricamente, por não querer se expor. Virginia, então, escreve em seu Diário: “Não quero ser célebre nem grande. Quero avançar, mudar, abrir meu espírito e meus olhos, recusar ser rotulada e estereotipada. O que conta é liberar-se por si mesma, descobrir suas próprias dimensões, recusar os entraves”.
Ao ver Londres bombardeada, durante a Segunda Guerra Mundial, com os escombros e as casas transformadas em cinza, ao longo das ruas pelas quais caminha, Virginia fica fortemente abalada com a destruição que presencia, e, de tal abalo, nunca mais se recuperará.
No dia 27 de março de 1941, Virginia é levada pelo marido, contra sua vontade, à clínica mais próxima. Os médicos pedem que pare de ler, que pare de escrever, que repouse, pois sua saúde mental depende dessas observações. O pesadelo volta a repetir-se, para Virginia: as visões, as alucinações. Combater agora, como fizera antes, tantas vezes, não era mais possível: “Lutei tanto quanto pude, mas não consigo mais”.
Nos dias que se seguem, Virginia escreve para as duas pessoas mais importantes de sua vida – o marido e para sua irmã. Ao marido lembra de seu amor por ele, lembra de sua bondade e de sua paciência; de sentir que não pode atravessar um novo episódio de demência. “Se alguém tivesse podido me salvar, teria sido você”. Ninguém poderá salvar Virginia Woolf. Pela primeira vez, Leonard chega tarde demais. Virginia Woolf resolve terminar sua vida pelo suicídio. E, num ato de coragem, joga-se no rio Ouse na manhã do dia 28 de março de 1941, aos 59 anos.
Principais obras de Virginia Woolf: (romance) A viagem, 1915; Noite e dia, 1919; O quatro de Jacob, 1922; Mrs. Dalloway, 1925; Passeio ao farol, 1927; Orlando, 1928; As ondas, 1931; Os anos, 1937; Entre atos, 1941; (contos) The complete Shorter Fiction, 1985 (não ficção) Modern fiction, 1919; O leitor comum, 1925; Um teto todo seu, 1929; Cenas londrinas, 1931; Three Guineas, 1931; The Death of the Month and Other Essays, 1942 – entre outros.

  
REFERÊNCIAS:
BLOOM, Harold. O Cânone ocidental: Os livros e a escola do tempo. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
VARGAS LLOSA, Julio. A verdade das mentiras. Tradução de  Cordelia Magalhães. 2ª ed. São Paulo: ARX, 2004.
LEMASSON, Alexandra. Virginia Woolf. Tradução de Ilana Heineberg. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2011.


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