20 de nov de 2017

DRUMMOND – Entre Bandeira e Oswald de Andrade




[PEDRO LUSO DE CARVALHO]
  

No ano de 1987 a editora Record publicou Tempo, vida, poesia, com o subtítulo de Confissões no rádio,  2ª edição, de Carlos Drummond de Andrade.

Na apresentação do livro Drummond esclarece que os temas aí abordados foram levados ao ar pela PRA-2, Rádio Ministério da Educação e Cultura, com apresentação de sua amiga Lya Cavalcanti, numa série de programas dominicais.

Drummond diz ainda que a matéria, objeto dessas entrevistas com Lya Cavalcanti, foi publicada no Jornal do Brasil, com algumas modificações.

Mais tarde deu-se a divulgação desse “papo radiofônico”, como era chamado pelo poeta, com a sua publicação em livro pela Record. Com o êxito do livro, a editora fez uma segunda edição.

Segue um desses “papos entre Lya e Drummondd”, intitulado Entre Bandeira e Oswald de Andrade, (In Andrade, Carlos Drummond de. Tempo, vida, poesia. 2ª ed. Rio de Janeiro, 1987, p. 99-103):


ENTRE BANDEIRA E OSWALD DE ANDRADE
(Drummond)


– Vocês, modernistas mineiros, não deviam gozar de muita consideração no meio conservador da província, mas tinham o bafejo, o apoio intelectual dos modernistas do Rio e São Paulo, não é mesmo?

– De fato, eles não davam muita confiança, e o aspecto saudável dessa relação é que não havia paternalismo de um lado e lisonja ou servilismo de outro. Contávamos especialmente com a simpatia de Manoel Bandeira, Mario de Andrade e Ribeiro Couto, mais velhos e mais bem informados do que nós, o que não impedia que os tratássemos sem cerimônia e até com certa petulância de galinhos de briga. Certa vez Bandeira fez na Revista do Brasil, da fase carioca, restrições ao livro de um poeta nosso amigo, Austen Amaro. Tanto bastou para que João Alphonsus, no Diário de Minas, desancasse rijamente o já então nosso mestre pernambucano: “Se Manoel Bandeira gosta de criticar exibindo ruindades, por que deixou passar as de Mário de Andrade, quando falou do Losango Cáqui?” A resposta de Bandeira, em carta aberta na mesma revista, é de uma humildade de santo e uma doçura de anjo: “Vamos fazer um acordo, João Alphonsus: me dê a sua simpatia, tire a sua admiração. Me queira bem, João Alphonsus.” João entregou os pontos: “Mais cedo do que eu esperava” – confessou ele, de público – “me arrependi  de ter escrito aquele medonho artigo. Infelizmente, é assim que a gente aprende a viver e a gostar daqueles que merecem ser amados além de admirados. Disponha do meu coração.”

– Até parece coisa de namorados.

– De fato, nós envolvíamos o fato literário num halo afetivo, embora isso não nos privasse de ser rigorosos com o objeto da nossa afeição. A aproximação intelectual gerava amizade. A amizade acabava prevalecendo sobre a vida literária. Movida por essa concepção, topei uma briga com Oswald de Andrade. Briga, aliás, que o tempo foi diluindo. Oswald não era homem de brigar para sempre. Gostava de variar de inimigos.

– Conte como foi isto.

– Foi durante a efervescência do movimento antropofágico, em 1929. O órgão dessa corrente era a Revista de Antropofagia, de São Paulo, dirigida pelo Antônio de Alcântara Machado, que lhe imprimia o seu próprio feitio inclinado ao humorismo, sem entretanto dar-lhe caráter polêmico. Oswald, tendente à radicalização, escreveu-me pedindo comunicar  à turma de Minas o novo rumo da revista, decidido por ele. E explicou: “Não houve transformação e sim ortodoxia. O Alcântara não entendeu o sentido do movimento, pensou que era troça e durante meses publicou inutilidades amenas. Evidentemente errei em tê-lo convidado para dirigir a revista. Agora a coisa é outra. Estão à frente Raul Bopp e Oswaldo Costa, cunhambebes autênticos e leais. Mandem coisas. Diga aos Cataguases* que contamos com eles.”

 – Não havia nisso muita política literária?

– A carta era macia, mas o tom da revista, em sua nova fase, era antes de intimidação. Num de seus números havia mesmo esta pergunta: “Os rapazes de Minas precisam se decidir. Será que a literatura é questão de amizade?” Respondi em meu nome que, para mim, efetivamente, toda a literatura não valia uma boa amizade. Com isso queria dizer (e Oswald percebeu muito bem) que não concordava com os ataques ferozes ao Alcântara e ao Mário de Andrade, os quais de uma hora para outra haviam passado de pessoas ótimas a indesejáveis. Acrescentei, com certa má-criação, que a antropofagia não era um movimento decente, e que eu não aderia.

– Aí pegou fogo?

– A reação de Oswald foi divertida. Publicou minha resposta com este título: “Cartas na mesa – Os Andradas se dividem.” Já em número seguinte, respondendo a Ascenso Ferreira, que se dizia antropofagista, mas ressalvava sua admiração por Mário de Andrade, Oswaldo Costa dizia ao pernambucano: “A sua carta não tem razão de ser, Ascenso; é uma carta de sentimento, coisa para além da antropofagia e que eu desconheço graças a Freud, a Jesus de Pirapora e a Exu. Nesse ponto você se põe de acordo com esse cretino do Drummond...” Mais tarde, Oswaldo Costa deixaria a literatura pelo jornalismo. Oswald continuou o mesmo menino-grande, muito mais piadista que o Alcântara, e anos depois caímos nos braços um do outro. No fundo, ele era necessitado de carinho, como toda gente, mas disfarçava essa necessidade sob a capa de trocista e provocador. Sua antropofagia era uma atitude intelectual. Com a idade e a doença, tirou a máscara, apareceu o homem sensível e desarmado.

– Em que consistiam afinal os princípios da antropofagia? Esta é uma conversa de rádio, convém informar.

– Partindo de costumes alimentares de nossos índios, Oswald elaborou uma espécie de interpretação histórica, a que pretendia ser também doutrina sociológica de base filosófica. Segundo ele, o homem é apenas um elo na cadeia universal de devoração. Os males do mundo vieram do dia em que o guerreiro vitorioso deixou de comer o adversário para fazê-lo escravo, instituindo assim o trabalho e a moral dos escravos.

– E como se manifestava isso em literatura?

– Comendo-se uns aos outros, como você viu.




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 * Aos rapazes do grupo e da revista Verde, da cidade mineira de Cataguases.



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