9 de dez de 2012

WENECK SODRÉ – A Música Brasileira - Parte V



por Pedro Luso de Carvalho


Na quarta parte de A Música Brasileira, dei realce ao que disse Nelson Werneck Sodré, in Síntese de História da Cultura Brasileira, 9.ª ed., Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1981: "apesar das concessões feitas diante das preferencias artísticas e musicais norte-americanas, a Bossa nova trouxe indiscutível benefício para renovação do nosso ambiente musical e contribuição no sentido da preservação do prestígio e da justa evidencia da música popular brasileira". Agora, na continuação da referencia feita por Sodré sobre o texto de Claribalte Passos, entendo ser importante dar o devido destaque ao que este diz sobre a Bossa Nova:

“A crédito do pessoal da Bossa Nova fica, porém, o esforço benéfico em favor da nossa música popular de modo geral esquecida e sofrida, graças aos falseamentos de suas tradicionais características, como que encostada à parede pela avalancha de produção musical importada e forçada através das missões diplomáticas sediadas no Brasil. Não adianta negar, pois, a respeito desse acintoso e criminoso 'financiamento' oriundo do exterior em detrimento dos nossos autores, maestros, instrumentistas e cantores, numa concorrência artístico-cultural das mais revoltantes e desleais. E o pior, em tudo isto, pasmem leitores – salienta Claribalte Passos -, é a ajuda recebida por tais 'invasores artísticos' por parte das emissoras de rádio, das televisões e das próprias fábricas de discos! (...)

A realidade, porém – diz Passos -, não deixa que alimentemos dúvidas. Basta para tanto, que sejam observadas as chamadas Paradas de Sucesso (Hit Parade) das emissoras nacionais de rádio e de televisão. Nelas, sem nenhuma contestação, predominam atualmente as produções musicais americanas, francesas e italianas, graças ao expediente fácil das versões realizadas, por incrível que pareça, pelos autores brasileiros e até mesmo alguns que nem compositores são!”

Depois de ter dado a posição de Claribalte Passos sobre esses fatos, Nelson Werneck Sodré escreve que o julgamento final do crítico não deixa dúvidas, quando afirma que “a mensagem artística oferecida pela Bossa Nova... trouxe indiscutivelmente resultados promissores para a ativação e até mesmo um renascimento da música popular brasileira. (...) Enunciou a Bossa Nova a necessidade de renovar velhas estruturas harmônicas do nosso samba, polindo suas arestas, encorajando novos e veteranos a cerrarem fileiras em favor da sobrevivência musical brasileira. E, assim, nas emissoras de rádio e televisão, a nossa música popular brasileira”. A Bossa Nova então passou a ser apresentada, no dizer de Sodré, como o saboroso prato do dia no cardápio gustativo popular.

A análise mais profunda do movimento musical - diz Sodré - que marca atual etapa foi realizada por Nelson Lins de Barros. “O movimento caracterizou-se – escreveu ele – por duas tendências concorrentes; uma, fazer frente à invasão da música estrangeira, principalmente, elevando seu próprio nível artístico. Enfim, atualizar o seu padrão ao nível internacional para fazer frente a essa música internacional”. E diz como isso ocorreu: “Ao surto industrial correspondeu um considerável melhoramento das condições técnicas propícias ao desenvolvimento da música: multiplicação de rádios, televisões, orquestras, instrumentistas, cantores, etc. A música brasileira já havia, anteriormente, alcançado grandes picos, mas nessa época não correspondia ao desenvolvimento do país".

Na próxima postagem, e última parte de A música Brasileira, veremos como surgiu a Bossa Nova, sob o enfoque de Nelson Lins de Barros, e, finalmente, a abordagem, sob a ótica de Nelson Werneck Sodré, dos motivos que impediram que a Bossa nova, nascida da classe média, como diz o escritor, e pretendendo ultrapassar o próprio nível cultural da classe média, não teve condições de penetração nas massas.



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