30 de out de 2012

WERNECK SODRÉ– A Música Brasileira - Parte II




por Pedro Luso de Carvalho


Como já mencionei no texto A Música Brasileira – Parte I, este tema foi desenvolvido por Nelson Werneck Sodré, no seu importante livro Síntese de História e Cultura Brasileira (Civilização Brasileira, 9ª ed., Rio de Janeiro, 1981), no qual faz uma análise importante sobre a música popular brasileira, no capítulo Música, dessa obra.
 
Terminei a primeira parte do texto mencionado, com este trecho de Nelson Werneck Sodré: “Alguns momentos marcaram essa longa etapa, iniciada ainda nos fins do século XIX: o aparecimento, por exemplo, em 1897, da marcha carnavalesca, ainda semi-erudita, de Chiquinha Gonzaga: "Ó abre alas". Vejamos, agora, o que diz o escritor na continuação dessa abordagem, sobre o desenvolvimento da música popular no Brasil:




CULTURA NACIONAL - MÚSICA (2ª parte)
(Nelson Werneck Sodré)



Vinte anos depois, em 1917, o compositor popular Ernesto dos Santos (Donga) gravava o primeiro samba: Pelo telefone. O samba, que veio substituir o maxixe, trazia marcas negras que se misturariam às novas influencias urbanas e modernas, que lhe foram alterando a feição, ao longo do tempo. O aparecimento do disco permitiu a crescente difusão da música popular e, ao mesmo passo, proporcionou-lhe o germe dos males que, adiante, iriam infetá-la profundamente. O desenvolvimento do mercado do disco foi lento, a princípio; o triunfo esmagador da música popular, aqui, ficou assinalado desde que a pequena burguesia a aceitou e adotou. E houve até aspectos interessantes que raros observaram; um deles, o cruzamento entre as letras das músicas e os versos dos poetas: enquanto estes procuravam, pouco a pouco, depois rápida e gravemente, tornar-se difíceis, aristocratizar-se, isolar-se, distanciar-se, letristas excelentes apresentavam, sem pretensões, poesia da melhor qualidade, ainda que formalmente defeituosa aqui e ali.

Letras como a de Chão de estrelas, de Orestes Barbosa, ou como as dos sambas de Noel Rosa, são o que em poesia se fez de melhor, no tempo. Conforme observou um comentarista – dos raríssimos que atentaram na aparente singularidade do fenômeno – os letristas de samba como que salvaram a poesia brasileira: “É claro que os macetes de um samba e de um poema são diferentes, mas deve-se levar em conta que, depois da invenção do gramofone, é difícil para a poesia em versos, publicada em livro, concorrer em rendimento com o estouro da comunicação visual e com a produção musical (sem falar no aspecto do consumo). Quem tiver disposição para tal que de uma olhada a fundo nas letras da música popular, dos 30 até hoje: lá estão muitos achados que botam no chinelo quase toda a versalhada de 1945 para cá”.

Na próxima postagem, aqui neste espaço, prosseguirei com esse mesmo tema, em sua terceira parte. 

         Para acessar a primeira parte deste trabalho, clique em: Werneck Sodré - A Música Brasileira - Parte I 


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