8 de jul de 2012

[Conto] MACHADO DE ASSIS – O Dicionário




             por  Pedro Luso de Carvalho

  
       MACHADO DE ASSIS (Joaquim Maria Machado de Assis) nasceu no Rio de Janeiro a 21 de junho de 1839; aí faleceu a 29 de novembro de 1902. Autodidata, tornou-se o mais importante escritor brasileiro, e um dos maiores da língua portuguesa.

       O lugar especial reservado a Machado de Assis na literatura brasileira justifica-se plenamente pela obra ficcional que escreveu; mencione-se Memórias póstumas de Brás Cubas, romance que marca a maturidade do escritor. Escreveu entre outros romances de grande importância, Dom Casmurro, obra que ainda hoje é lida e discutida nos meios literários e nos meios escolares.

       Para José Verissimo, Machado de Assis foi “a mais eminente figura de nossa literatura”; para Carlos Fuentes, Machado de Assis e o argentino Jorge Luis Borges são os dois grandes nomes da literatura da América Latina; em suas palavras: “Borges foi o primeiro narrador de língua espanhola nas Américas (Machado de Assis já o havia conseguido, milagrosamente, na língua portuguesa do Brasil)”, enfatiza Fuentes, um dos mais importantes escritores latino-americanos, falecido neste ano.

     Machado também foi mestre no conto, como bem realça o Professor Sergius Gonzaga: “Mestre inquestionável do gênero, Machado de Assis experimentou as diferentes possibilidades de construção do relato curto (...) o conto tradicional, também conhecido como anedótico, o conto moderno e o conto de caracteres (...)”.

        Segue  o conto, de Machado de Assis, O dicionário  (In Machado de Assis. Páginas recolhidas. Rio de Janeiro: W.M. Jackson Inc. Editores, 1952, p. 27-32):

  
                                                      O DICIONÁRIO
                                                         (Machado de Assis)


        Era uma vez um tanoeiro, demagogo, chamado Bernardino, o qual em cosmografia professava a opinião de que este mundo é um imenso tonel de marmelada, e em política pedia o trono para a multidão. Com o fim de a por ali, pegou um pau, concitou os ânimos e deitou abaixo o rei; mas, entrando no paço, vencedor e aclamado, viu que o trono só dava para uma pessoa, e cortou a dificuldade sentando-se em cima.

        – Em mim, bradou ele, poderia ver a multidão coroada. Eu sou vós, vós sois eu.

        O primeiro ato do novo rei foi abolir a tanoaria, indenizando os tanoeiros, prestes a derrubá-lo, com o título de Magníficos. O segundo foi declarar que, para maior lustre da pessoa e do cargo, passava a chamar-se, em vez de Bernardino, Bernardão. Particularmente encomendou uma genealogia a um grande doutor dessas matérias, que em pouco mais de uma hora o entroncou a um tal ou qual general romano do século IV, Bernardus Tanoarius; - nome que deu lugar à controvérsia, que ainda dura, querendo uns que o rei Bernardão tivesse sido tanoeiro, e outros que isto não passe de uma confusão deplorável com o nome do fundador da família. Já vimos que esta segunda opinião é a única verdadeira.

        Como era calvo desde verdes anos, decretou Bernardão que todos os seus súditos fossem igualmente calvos, ou por natureza ou por navalha, e fundou esse ato em uma razão de ordem política, a saber, que a unidade moral do Estado pedia a conformidade exterior das cabeças. Outro ato em que revelou igual sabedoria, foi o que ordenou que todos os sapatos de pé esquerdo tivessem um pequeno talho no lugar correspondente ao dedo mínimo, dando assim aos seus súditos o ensejo de se parecerem com ele, que padecia de um calo. O uso dos óculos em todo o reino não se explica de outro modo, sendo por uma oftalmia a que afligiu a Bernardão, logo no segundo ano de reinado. A doença levou-lhe um olho, e foi aqui que se revelou a vocação poética de Bernardão, porque, tendo-lhe dito um de seus dois ministros, chamado Alfa, que a perda de um olho o fazia igual a Aníbal, - comparação que o lisonjeou muito, - o segundo ministro, Ômega, deu um passo adiante, e achou-o superior a Homero, que perdera ambos os olhos. Esta cortesia foi uma revelação; e como isto prende com o casamento, vamos ao casamento.

        Tratava-se, em verdade, de assegurar a dinastia dos Tanoarius. Não faltavam noivas ao novo rei, mas nenhuma lhe agradou tanto como a moça Estrelada, bela, rica e ilustre. Esta senhora, que cultivava a música e a poesia, era requestada por alguns cavalheiros, e mostrava-se file à dinastia decaída. Bernardão ofereceu-lhe as coisas mais suntuosas e raras, e, por outro lado, a família bradava-lhe que uma coroa na cabeça valia mais que uma saudade no coração; que não fizesse a desgraça dos seus, quando o ilustre Bernardão lhe acenava com o principado; que os tronos não andavam a rodo, e mais isto, e mais aquilo. Estrelada, porém, resistia à sedução.

        Não resistiu muito tempo, mas também não cedeu tudo. Como entre os seus candidatos preferia secretamente um poeta, declarou que estava pronta a casar, mas seria com que fizesse o melhor madrigal, em concurso. Bernardão aceitou a cláusula, louco de amor e confiando em si: tinha mais um olho que Homero, e fizera a unidade dos pés e das cabeças.

        Concorreram ao certame. Que foi anônimo e secreto, vinte pessoas. Um dos madrigais foi julgado superior aos outros todos: era justamente o do poeta amado. Bernardão anulou por um decreto o concurso, e mandou abrir outro; mas então, por uma inspiração de insigne maquiavelismo, ordenou que não se empregassem palavras que tivessem menos de trezentos anos de idade. Nenhum dos concorrentes estudara os clássicos: era o meio provável de os vencer.

        Não venceu ainda assim, porque o poeta amado leu à pressa o que pode, e o seu madrigal foi outra vez o melhor. Bernardão anulou esse segundo concurso; e, vendo que no madrigal vencedor as locuções antigas deram singular graça aos versos, decretou que só se empregassem as modernas e particularmente as da moda. Terceiro concurso, a terceira vitória do poeta amado.

         Bernardão, furioso, abriu-se com os dois ministros, pedindo-lhes um remédio pronto e enérgico, porque, se não ganhasse a mão de Estrelada, mandaria cortar trezentas mil cabeças. Os dois, tendo consultado algum tempo, voltaram com este alvitre:

          - Nós, Alfa e ômega, estamos designados pelos nossos nomes para as coisas que respeitam à linguagem.  A nossa ideia é que Vossa Sublimidade mande recolher todos os dicionários e nos encarregue de compor um vocabulário novo que lhe dará a vitória.

         Barnardão assim fez, e os dois meteram-se em casa durante três meses, findo os quais depositaram nas augustas mãos a obra acabada, um livro a que chamaram Dicionário de Babel, porque era realmente a confusão das letras. Nenhuma locução se parecia com a do idioma falado; as consoantes trepavam nas consoantes, as vogais diluíam-se nas vogais, palavras de duas sílabas tinham agora sete e oito, e vice-versa, tudo trocado, misturado, nenhuma energia, nenhuma graça, uma língua de cacos e trapos.

         - Obrigue Vossa Sublimidade esta língua por decreto, e tudo está feito.

         Bernardão concedeu um abraço e uma pensão a ambos, decretou o vocabulário, e declarou que ia fazer-se o concurso definitivo para obter a mão da bela Estrelada. A confusão passou do dicionário aos espíritos; toda a gente andava atônita. Os farsolas cumprimentavam-se na rua pelas novas locuções: diziam, por exemplo, em vez de: 'Bom dia, como passou?' - 'Pflerrgpxx, rouph, aa?' A própria dama, temendo que o poeta amado perdesse afinal a campanha, propôs-lhe que fugissem; ele, porém, respondeu que ia ver primeiro se podia fazer alguma coisa. Deram noventa dias para o novo concurso e recolheram-se vinte madrigais. O melhor deles, apesar da língua bárbara, foi o do poeta amado. Bernardão, alucinado, mandou cortar as mãos aos dois ministros, e foi a única vingança. Estrelada era tão admiravelmente bela, que ele não se atreveu a magoá-la, e cedeu.

         Desgostoso, encerrou-se oito dias na biblioteca, lendo, passeando ou meditando. Parece que a última coisa que leu foi uma sátira do poeta Garção, e especialmente estes versos, que pareciam feitos de encomenda: 
                    O raro Apeles,
            Rubens e Rafael, inimitáveis,
            Não se fizeram pela cor das tintas;
            A mistura elegante os fez eternos.
                                                                   
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REFERÊNCIAS:
BUARQUE DE HOLLANDA, Aurélio. LINS, Álvaro. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. Antologia da Língua Portuguesa. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, vol.  II, 1966, p.1138.
FUENTES, Carlos. Geografia do Romance. Tradução de Carlos Nougué. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1993, p. 51.
MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Contos definitivos. Porto Alegre: Editora Novo Século, 1998, pg. 8.

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