22/06/2011

[Crônica] PEDRO LUSO / Malditos Tempos Modernos

Capa de  Elifas Andreato


               por  Pedro Luso de Carvalho

        
        Eu passeava com meu cão por ruas do bairro onde moro, quando encontrei um amigo que não via há anos. Nossa amizade vem do tempo em que nos preparávamos para prestar vestibular; minha meta era o Direito e a dele a Economia. Naqueles anos de chumbo, falávamos sobre tudo: na música, discorríamos sobre os melhores cantores e compositores da bossa-nova e da tropicália; na política, elegíamos os salvadores do Brasil, como, entre outros, alguns dos nomes que integravam a revista Argumento, que foram: Barbosa Lima Sobrinho, Alceu Amoroso Lima, Érico Veríssimo, Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda, Celso Furtado, Fernando Henrique Cardoso. (Ainda guardo três exemplares da Argumento.)

        Nesse encontro, sequer tocamos nesses nomes, como de resto não mencionamos o nome de um único político. Tampouco a Argumento foi lembrada por nós; esta época está muito distante daqueles tempos difíceis da Ditadura Militar. Mas o fato é que a revista foi muito importante para nós, jovens estudantes idealistas; reacionários, para os militares e para muitos de seus admiradores, que fingiam desconhecer as seções de torturas a que eram submetidos estudantes, jornalistas e políticos, dentre eles a jovem Dilma Rousseff, hoje presidente da República – muitos desses torturados foram levados à morte, como foi o caso do jornalista e professor da USP e teatrólogo, Vladimir Herzog. 

        Hoje, um dia depois desse encontro casual, lembrei-me dos fatos que envolveram o meu amigo e sua família; das sérias dificuldades que ele está passando: da sua separação da mulher, há alguns anos; da sua filha solteira, mãe e desempregada; do filho viciado em drogas, que há mais de uma década  abandonou a mulher e dois filhos pequenos; das agressões físicas que meu amigo e sua filha sofrem  do filho drogado. 

        Vejo que esse amigo não é o mesmo que conheci naquele tempo do vestibular e do golpe Militar. Então tive vontade de contar-lhe o que havia acontecido com esses homens que haviam lutado pela democracia com essa poderosa arma que era a revista Argumento, mas desisti da ideia. Inobstante isso, enquanto ele falava do seu desencanto com a vida, do caos que se transformou sua família, das agressões do filho viciado em drogas, voltei minha imaginação, nesse momento, para esses nomes que haviam dado vida a Argumento no início dos anos 70.

        E, assim, passei a imaginar que estava narrando ao meu amigo os fatos que estavam relacionados com a revista Argumento, editada pela Paz e Terra, bem como do que, nesse tempo, fizeram seus ilustres colaboradores: 

        Barbosa Lima Sobrinho foi o primeiro signatário do pedido de impeachment do presidente Fernando Collor, em 1992; Florestan Fernandes foi o orientador nos trabalhos acadêmicos de Fernando Henrique Cardoso, de quem se tornou amigo, amizade que durou até a morte de Florestan; Sérgio Buarque de Holanda foi co-fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), com Lula, entre outros, em 1970; Fernando Henrique Cardoso assumiu o Ministério da Fazenda no Governo de Itamar Franco, em 1993, após o impeachment do presidente Fernando Collor, permanecendo até março de 1994; FHC então deu início a implantação do Plano Real, e foi eleito Presidente da República em outubro de 1994, e reeleito em 1998, graças à sua política de estabilidade e de continuidade do Plano Real. 

       Pensei em continuar falando desses homens extraordinários da Argumento, em minha imaginação, claro, já que o viés da nossa conversa real era a desventura de sua familia, para dizer-lhe alguma coisa mais sobre estes outros colaboladores da revista: Alceu Amoroso Lima (Tristão de Ataíde), Érico Veríssimo, Celso Furtado, Hélio Jaguaribe, Elifas Andreato (editor de Arte), Octávio Paz (o poeta mais importante do México), mas percebi a intenção de meu amigo em retirar-se, até por que deveria estar estranhando minha apatia. 

        O amigo então estendeu o braço para um aperto de mão de despedida, e disse, como se estivesse completando suas queixas sobre sua família infeliz: “É isso, amigo, essa minha desgraça toda é fruto desses malditos tempos modernos”. Dito isso, deu-me as costas e retomou a caminhada rumo à sua casa. Eu fiquei ali na rua com meu cão, por algum tempo, até ver aquele homem precocemente envelhecido afastar-se no seu caminhar arrastado; caminhar que representava bem o arremedo do que ele foi no passado.





13/06/2011

DOROTHY PARKER / Uma entrevista

Dorothy Parker



                por  Pedro Luso de Carvalho



        Dorothy Parker (Dorothy Rothschild, era o seu nome) nasceu em West End, New Jersey, em 1893. Em 1914, vendeu o seu primeiro poema para a revista Vanity Fair. Dois anos depois foi contratada pela revista Vogue; em 1917 passou a escrever crítica de teatro para Vanity Fair. Os seus contos passaram a ser publicados em 1925 pela The New Yorker, criada nesse ano; para essa mesma revista passou a escrever resenhas de livros em 1927. Dois anos depois ganhou o prêmio O. Henry pelo seu conto Big Blod, que a escritora incluiu nos seus livros de contos: After Such Pleasures (1933), Here Lies (1939) e Collected Stories (1942). Parker seguiu escrevendo contos, poemas e crítica, que foram publicados no seu país nos anos que se seguiram, sempre com grande sucesso, o que não ocorria com o que mais gostava, suas peças teatrais.  

       Dorothy Parker também escreveu roteiros para Hollywood, dentre eles a Star Is Born (Nasce uma Estrela), com indicação para o Oscar em 1937 (a escritora passou a detestar Hollywood, a ponto de recusar-se pronunciar esse nome, substituindo- por “lá”). A escritora foi amiga e também a contista preferida do erudito crítico literário norte-americano Edmund Wilson, autor de Axel's Castle (O Castelo de Axel).  

        Quando Dorothy Parker foi entrevistada pela The Paris Review, no pequeno quarto do hotel em que morava, no centro de Nova York, dentre as muitas perguntas, que lhe fez a entrevistadora da revista, uma foi se é vantagem a segurança econômica para o escritor; Parker respondeu-lhe:

        "Sim. Ficar dura não faz bem nenhum, a menos que você seja uma espécie de Keats. Os que escreviam bem nos anos 20 tinham uma vida confortável. Quanto a mim, gostaria de ter dinheiro. E gostaria de ser uma boa escritora. Essas duas coisas podem se juntar, e espero que se juntem, mas, se for pedir demais, prefiro ter dinheiro. Odeio quase todos os ricos, mas acho que eu seria adorável. No momento, porém, gosto de pensar na observação de Maurice Baring: “Se você quer saber o que o Senhor pensa do dinheiro, terá apenas de olhar para aqueles a quem Ele o dá”. Sei que não ajuda muito quando o lobo bate na porta, mas é um consolo". 

        Dorothy Parker morreu de um ataque cardíaco no Hotel Volney, em Nova York, em 1967, aos 74 anos, deixando obras poéticas, contos e crítica literária da maior importância. No Brasil, foi publicado pela primeira vez o livro de contos Big loira e outras histórias de Nova York

        Edmund Wilson, ficcionista e crítico literário famoso, dizia sobre os contos da talentosa escritora da era do jazz dos anos 20 e 30: “Os contos de Dorothy Parker continuam hoje tão agudos e engraçados como na época em que foram escritos." E, para F. Scott Fitzgerald, Dorothy Parker era "A melhor escritora de sua geração."  




REFERÊNCIA:
PLIMPTON. George. Escritoras e a arte da escrita. The, Paris Review. Tradução de Maria Ignez Duque Estrada. Rio de Janeiro: Gryphus, 2001, p.86.