18/01/2010

LIMA BARRETO, TALENTO E REBELDIA





por Pedro Luso de Carvalho



Lima Barreto é, sem dúvida, um dos nomes mais importantes da literatura brasileira. Nasceu no dia 13 de maio de 1881, no Rio de Janeiro, onde morreu, em 1 de novembro de 1922, com 41 anos. Iniciou os seus estudos aos seis anos, no Liceu Popular Niteroiense; aos onze anos concluiu os preparatórios no Colégio Pedro II; passou a estudar na Escola Politécnica; viu-se obrigado a interromper o curso, deixando, pois, de receber o diploma de bacharel, para ajudar no sustento da família, por ser ele o filho mais velho, depois que seu pai foi acometido de grave doença mental. Para atingir esse objetivo, Afonso Henriques de Lima Barreto prestou concurso público para a Secretaria da Guerra; aprovado, foi nomeado para o cargo de terceiro-oficial.


Uma vez efetivado para o cargo, na Secretaria da Guerra, Lima Barreto passou a colaborar em pequenos jornais de estudantes. Aí começaria a sua carreira de escritor. Nessa época, encontrava-se indeciso quanto à escolha do gênero literário, se ensaio ou ficção. Depois de ter desistido de um projeto de escrever uma história da escravidão no Brasil, decidiu que seria romancista, e como tal se distinguiria pelo talento e honestidade, colocados em suas obras: Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915), Numa e a Ninfa (1915), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Histórias e Sonhos (1920), Os Bruzundangas (1922), Bagatelas (1923), entre outros; estas duas últimas obras foram publicadas depois da morte do autor.


Essa vigorosa obra passou a ser recebida com respeito pela crítica literária. Manoel Bandeira escreveu sobre Lima Barreto: “Incorreto de linguagem, mas penetrante na observação dos costumes e da paisagem urbana e suburbana de sua cidade natal”. Depois das publicações póstumas de Os Bruzundangas e Bagatelas, o romancista caiu no esquecimento de forma inesplicável. Em 1930, um pequeno grupo de amigos tenta chamar a atenção para a obra do escritor. A imprensa acompanhou o movimento; Agrippino Grieco escreve o primeiro artigo para reabilitar o escritor, tratando-o como “o maior e o mais brasileiro de nossos romancistas”.


Os movimentos para a reabilitação do escritor merece um texto à parte, que poderá ser abordado neste espaço, em outra ocasião. Por enquanto, ficaremos com este texto, falando da vida e da obra de Lima Barreto, que, ainda jovem, lia na Biblioteca Nacional e na Escola Politécnica, onde estudava, os volumes de Descartes, Condillac, Condorcet, Kant, Spencer e Comte. Em especial, o livro que mais o influenciou nessa fase de aprendizado: “Discurso do Método”, de Descartes.


Sobre o seu primeiro livro, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, pretendeu, simplesmente, diz o próprio romancista, mostrar que “um rapaz nas condições de Isaías, com todas as disposições, pode falhar, não em virtude de suas qualidades intrínsicas, mas batido, esmagado, prensado pelo preconceito”. E, diz mais, na mesma carta: “Não sei como me saí da empresa. Se lá pus certas figuras e o jornal, foi para escandalizar e provocar a atenção para a minha brochura. Não sei se o processo é decente, mas foi aquele que me surgiu para lutar contra a indiferênça, a má vontade dos nossos mandarins literários”.


O fato de ser ele mulato, neto de escravos, filho de uma escrava e de um português, levou-o a sentir o peso do preconceito racial, sentimento esse que viria contribuir para que ele se tornasse um escritor profundo, bem diferente dos demais escritores de sua época, na sua maioria. Naqule tempo, o preconceito que existia no Brasil era muito mais intenso que nos dias atuais, sem dúvida. Mas mesmo assim Veiga Miranda publicou um artigo em São Paulo sobre Recordações do Escrivão Isaías Caminha, e discordou do escritor: “Estamos muito longe dos Estados Unidos. Poder-se-ia dizer antes que uma dose de mulatice até influi favoravelmente na carreira do indivíduo”.


Lima Barreto não deixou de responder a Veiga Miranda, e o fez de forma clara e irrefutável: “Quanto ao preconceito de cor, diz o senhor que ele não existe entre nós. Houve sempre uma uma quizília que se ia fazendo preconceito quando o Senhor Rio Branco tratou de “eleganciar” o Brasil. Isto não se prova, sei bem; mas se não tenho provas judiciais, tenho muito por onde concluir. Porque aí, em São Paulo, e em Campinas também, há sociedades de homens de cor? Hão de ter surgido devido a algum impulso do meio, tanto que no resto do Brasil não as há”. Quanto a não haver sociedades de gente de cor fora de São Paulo e de Campinas, como diz Lima, este não poderia dizer o mesmo se tivesse vivido em torno dos anos 50 em diante, quando essas sociedades eram, e talvez ainda sejam, encontradas em outros Estados da União, como, por exemplo, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.


Francisco de Assis Barbosa posiciona-se quanto a influência da cor na obra do escritor: “É claro que a condição de mulato – e mulato incompreendido e até certo ponto perseguido – influenciou a obra de Lima Barreto. Mas isso não é tudo. Há nela muito mais do que uma reação meramente instintiva de um profundo sentimento humano e de uma admirável compreenção do fenômeno social.”

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Luiz Ricardo de Leitão, autor de Lima Barreto, o rebelde impressindível, Editora Expressão Cultural, São Paulo, 2006, faz uma interessante comparação entre Machado de Assis e Lima Barreto, na apresentação de seu livro, e, a certa altura do texto, faz referência à cor e ao preconceito, pelo fato de que ambos os escritores eram mulatos; diz Leitão: “No entanto, não deixemos que os preconceitos turvem a nossa visão: em um país que só reverencia a casa-grande, os dois mulatos simbolizam em suas raízes a ironia maior da jovem nação, cuja cultura mais refinada nasce sob o signo da miscigenação. Antonio Francisco Lisboa, dito o “Aleijadinho”, na plástica; padre José Maurício, na música; Machado e Lima, na prosa de ficção: todos eles nos revelam que, sem o sincretismo, as elites de Pindorma não teriam do que se orgulhar no grande palco do mundo ocidental...”

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Voltemos à obra de Lima. Quando Lima Barreto publicou Recordações do Escrivão Isaías Caminha já havia concluído o romance Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá. Portanto, poderia ter publicado qualquer um desses romances, mas deixou este último para mais tarde, preferindo fazer sua estréia com o primeiro (Recordações do Escrivão Isaías Caminha), com essa motivação: “Era um tanto cerebrino o Gonzaga de Sá – diz Lima -, muito calmo e solene. Pouco acessível, portanto. Mandei as Recordações do Escrivão Isaías Caminha, um livro desigual, propositalmente mal feito, brutal, por vezes, mas sincero sempre. Espero muito nele para escandalizar e desagradar, e temo, não que ele te escadalize, mas que te desagrade. Como contigo, eu terei grande desgosto que isso aconteça a outro amigo”.


Lima Barreto prossegue explicando o por quê de sua preferência pelo Recordações do Escrivão Isaías Caminha, para sua estréia como romancista: “Espero que esse primeiro movimento, muito natural seja seguido de um outro de reflexão em que vocês considerem bem que não foi só o escândalo, o egotismo e a charge que pus ali. Peço que não te esqueças daqueles versos que pus no alto do primeiro capítulo, quando o comecei a publicar:

Mon coer profond ressemble à ces voûtes d'église
Où le moindre bruit s'enfle em une immense voix,

e então hás de ver que a tela que manchei tenciona dizer aquilo que os simples fatos não dizem, segundo o nosso Taine, de modo a esclarecê-los melhor, dar-lhes importância, em virtude do poder da forma literária, agitá-los porque são importantes para o nosso destino. Querendo fazer isso e fazer compreender aos outros que há importância na questão que eles tratam com tanta ligeireza, não me afastei da literatura conforme concebo e perpetuam os nossos mestres Taine e Brunetièro, mas temo que não tivesse conseguido bem o escopo e tu hás de me perdoar o desastre pela ousadia e tentativa”.


Podemos compreender, com o texto supra, que o escritor não estava interessado na arte pela arte; tampouco em seus artifícios verbais; ao contrário, a sua literatura tinha um endereço certo, qual seja, ir ao encontro do público, provocando-o para que este lhe dissesse sobre drama íntimo de cada um. Lima Bareto queria conhecer todos os sentimentos que envolvem a sociedade, suas quizilas todas, com o objetivo de analisar esse fenômeno social. Como ele próprio dizia, buscava “a solidaridade humana, mais do que nenhuma outra coisa, interessa o destino da humanidade”.


Sobre a má qualidade das edições das obras de Lima Barreto temos o depoimento do conceituado crítico literário, Francisco de Assis Barbosa, que escreveu o prefácio para o romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha, 7ª edição, Editora Brasiliense, São Paulo, 1978:


“É bem de ver que Lima Barreto – escreve Barbosa -, tanto em vida, como depois de morto, por vários fatores, que não vem a pêlo comentar, foi maltratado pelas edições das suas obras. Daí o grande problema que tínhamos pela frente, apresentar o escritor tal como ele foi, e não mutilado ou deformado, como vinha sendo, dando azo às críticas injustas, feitas de boa ou de má fé, pelos que fingem ignorar ou insistem em desconhecer a mensagem renovadora do autor de Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Ao cabo de um trabalho penoso é nosso dever reconhecer, com uma ponta de orgulho, não nos termos equivocado na escolha de nossos colaboradores”.


Os colaboradores, a que se refere Assis Barbosa, para o plano de publicação das obras de Lima Barreto, cuja coleção abrange desessete volumes, são: o filólogo Antônio Houaiss e o professor de português Manoel Calvalcânti Proença. E, para cada uma das obras que integram a referida coleção, foi escolhido, por Barbosa alguns dos escritores brasileiros mais importantes para escrever o respectivo prefácio. Portanto, ficamos muito a dever ao homem culto que foi Francisco de Assis Barbosa e aos seus ilustres colaboradores (Houaiss e Proença), bem como aos ilustres escritores que aceitaram escrever os prefácios para cada uma das obras de Lima Barreto.


Os dezessete volumes, que compõem a referida coleção das obras de Lima Barreto, são: I - Recordações do Escrivão Isaías Caminha, prefácio de Francisco de Assis Barbosa; II - Triste Fim de Policarpo Quaresma, romance, prefácio de M. De Oliveira Lima; III - Numa e Ninfa, romance, prefácio de João Ribeiro; IV - Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, romance, prefácio de Alceu Amoroso Lima (Tristão de Ataíde); V - Clara dos Anjos, romance, prefácio de Sérgio Buarque de Holanda; VI - Histórias e Sonhos, contos, prefácio de Lúcia Miguel Pereira; VII - Os Bruzundangas, sátira, prefácio de Osmar Pimentel; VIII - Coisas do Reino de Jambon, sátira, prefácio de Olívio Montenegro; IX - Bagatelas, artigos, prefácio de Astrojildo Pereira; X - Feiras e Mafuás, artigos e crônicas, prefácio de Jackson de Figueiredo; XI - Vida Urbana, artigos e crônicas, prefácio de Antônio Houaiss; XII - Marginália, artigos e crônicas, prefácio de Agrippino Grieco; XIII – Impressões de Leitura, crítica literária, prefácio de M. Cavalcânti Proença; XIV - Diário Íntimo, memórias, prefácio de Gilberto Freire; XV - O Cemitério dos Vivos, memórias e fragmentos, prefácio de Eugêgio Gomes; XVI - Correspondência, ativa e passiva, primeiro volume, prefácio de Antônio Noronha Santos; XVII - Correspondência, ativa e passiva, segundo volume, prefácio de B. Quadros.



REFERÊNCIAS:
LINS, Álvaro. BUARQUE DE HOLLANDA, Aurélio. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. Vol. 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.
LIMA BARRETO. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Prefácio de Francisco de Assis Barbosa. 7ª ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1978.
LEITÃO, Luiz Ricardo. Lima Barreto, o rebelde imprescindível. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2006.

03/01/2010

[Poesia] EDGAR ALLAN POE / Ulalume



             por Pedro Luso de Carvalho
       
         Sobre o genial escritor Edgar Allan Poe (1809-1849) escrevi três textos, que se encontram postados neste espaço, quais sejam: Edgar Allan Poe e sua Antologia de Contos; O Corvo e Annabel Lee. Num desses textos, fiz menção ao seguinte fato: no ano de 1847, o escritor norte-americano tem algumas de suas histórias traduzidas para o francês, por Charles Baudelaire (1821-1867), dentre eles um dos famosos contos de Poe, qual seja, A Queda da Casa de Usher; Baudelaire também escreve o prefácio das obras de Poe. Eis um trecho do prefácio de Baudelaire:

        “Como poeta Edgar Poe é um homem à parte. Representa quase sozinho o movimento romântico do outro lado do oceano. É o primeiro americano que, propriamente falando, fez do seu estilo uma ferramenta. Sua poesia, profunda e gemente, é, não obstante, trabalhada, pura, correta e brilhante, como uma jóia de cristal. Edgar Poe amava os ritmos complicados que fossem, neles encerrava uma harmonia profunda”.

        Charles Baudelaire prossegue sua análise sobre os poemas de Poe, dizendo: “Há um pequeno poema seu intitulado Os Sinos”, que é uma verdadeira curiosidade literária; traduzível, porém, não o é; O Corvo logrou grande êxito. Segundo afirmam Longfellow e Emerson, é uma maravilha. O assunto é quase nada, e é uma pura obra de arte. O tom é grave e quase sobrenatural, como os pensamentos da insônia; os versos caem um a um, como lágrimas monótonas; No país dos sonhos tentou descrever a sucessão dos sonhos e das imagens fantásticas que assaltam a alma, quando o olho corpóreo está cerrado”.

        A consagração de Poe, dois anos antes de sua morte, deveu-se não apenas ao conto, mas também aos seus brilhantes ensaios e aos seus poemas magistrais. Efetivamente, a imaginação de Poe era extraordinária, qualidade que se somava a outra, qual seja, a de ter sido intransigente no tocante à excelência literária de sua obra. Mas, assim não entendiam os pseudos intelectuais da época, que não compreendiam a grandiosidade da obra de Poe. Para os críticos europeus, até o ano de 1847, quando Baudelaire traduziu Poe, os Estados Unidos tinham uma literatura de segunda categoria.
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        Julio Cortázar menciona os motivos da tardia aceitação da obra de Poe pelos norte-americanos, qual seja, de estarem os Estados Unidos atrelados à literatura do século XVIII, com “péssimos romances e poemas, ensaios triviais ou extravagantes, contos insípidos”; e mais: que entre os anos de 1830 e 1850 os Estados Unidos estavam iniciando sua história literária, e que os poucos escritores de talento eram: James Russel Lowell, Hawthorne, Emerson e Longfellow.

        Exemplo desse cuidado com sua obra é o seu imortal poema O Corvo, que foi traduzido inúmeras vezes para vários idiomas; para o idioma português, a tradução foi feita por dois mestres da literatura: o brasileiro Machado de Assis e o português Fernando Pessoa. As primeiras traduções de O Corvo, foram feitas pelos franceses Baudelaire e Mallarmé. Outros poemas, como Ulalume, Annabel Lee, Tamerlão, Os Sinos e Al Aaraaf, entre outros, gozam de igual celebridade. Para quem não conhece ULALUNE, esta é a oportunidade para ler esse excelente poema de Edgar Allan Poe.

            

         ULALUME


Era o céu de um cinzento funerário
e a folhagem, fanada, morria,
a folhagem, crispada, morria;
era noite, no outubro solitário
de ano que já me não lembraria;
ficava ali bem perto o lago de Auber,
na região enevoada de Weir;
bem perto, o pantanal úmido de Auber,
na floresta assombrada de Weir.


Lá, uma vez, por um renque titânico
de ciprestes, vagueei, em desconsolo.
Era então o meu peito vulcânico
qual torrente de lava que no solo
salta, vinda dos cumes de Yaanek,
nas mais longínquas regiões do pólo,
que ululando se atira do Yaanek
nos panoramas árticos do pólo.


Tristonha e gravemente conversamos,
mas a idéia era lassa e vazia
e a memória traidora e vazia;
que o mês era de outubro não lembramos,
nem soubemos que noite fugia.
(Ai! A noite das noites fugia!)
Não recordamos a lagoa de Auber
(e já fôramos lá, certo dia);
não pensamos no charco úmido de Auber
nem no bosque assombrado de Weir.


Quando a noite ia já desmaiada
e as estrelas chamavam pela aurora,
pálidos astros apontando a aurora,
eis que surge, no extremo da estrada,
uma luz fluida, nebulosa; e fora
dela se ergue um crescente recurvo,
diadema de Astarté, que se alcandora.
“Menos fria que Diana é essa estrela”,
digo, “a girar num éter feito de ais.
Viu o pranto, que a mágoa revela,
nas faces em que há vermes imortais
e, por onde o Leão se constela,
vem mostrar o caminho aos céus, letais
caminhos para a paz dos céus letais;
a despeito do Leão, vem-nos ela
iluminar, com olhos triunfais;
das cavernas do Leão, vem-nos ela,
cheia de amor nos olhos triunfais.”


Mas diz Psique, tremendo de aflição:
“Dessa estrela, por Deus, desconfia!
Desse estranho palor desconfia!
É preciso fugir de luz tão fria!
Apressemo-nos! Voemos, então!”
E, perdidas de tanta agonia,
suas asas se inclinavam para o chão;
soluçava e, de tanta agonia,
as plumas rastejavam pelo chão,
tristemente roçando pelo chão.


“Isso”, falei, “é um sonho de criança!
Oh! sigamos a luz que facina,
mergulhemos na luz cristalina!
É um clarão de beleza e de esperança
o que vem dessa luz sibilina.
Olha-a: entre as sombras, como gira e dança!
Guie-nos, pois, essa estrela, que ilumina
nossa estrada, com toda a confiança;
que nos guie para onde se destina.
Nessa estrela tenhamos confiança,
pois nas sombras, assim, volteia e dança!”


Dou um beijo a Psique, que a conforta,
impedindo que o medo se avolume,
que a dúvida, a tristeza se avolume,
e da estrela seguimos o lume
a té que nos deteve uma porta
de tumba, e uma legenda nessa porta.
“Doce irmã”, perguntei, “dessa porta
que tragédia a legenda resume?”
“Ulalume!” - responde-me. “Ulalume!”
“Essa é a tumba perdida de Ulalume!”


E me vi de tristezas referto,
como a folhagem seca que morria,
a folhagem fanada que morria!
E exclamei: “Era outubro, decerto,
e era esta mesma, há um ano, a noite fria
em que vim, a chorar, aqui perto,
fardo horrível trazendo, aqui perto!
Nesta noite das noites, sombria,
que demônio me arrasta aqui tão perto?
Bem reconheço agora o lago de Auber,
na região enevoada de Weir;
bem vejo o pantanal úmido de Auber,
na floresta assombrada de Weir!”.



(Tradução de Osmar Mendes)