27/12/2009

DE ESTRADAS E DE POLÍTICOS





por Pedro Luso de Carvalho



Não é à toa que o Brasil esteja colocado entre os cinco países com maior número de acidentes de automóveis em todo o mundo: as estradas brasileiras estão um caos, em sua grande maioria. De norte a sul do país, é sempre a mesma coisa. Todos os dias novos registros de acidentes entram na triste estatística de morte e de incapacidade física de pessoas: ônibus, caminhões e carros de passeio que deixam a triste estatística crescer dia-a-dia.


Os motivos de tanta desgraça são muitos, como, por exemplo, estradas mal cuidadas, o álcool e outras drogas que prejudicam a atenção dos motoristas. Então, vemos pais perdendo seus filhos (o número de carros acidentados com jovens são os registros mais freqüentes), são filhos perdendo seus país, fato este que resulta sempre em perda insubstituível como em prejuízos que dizem respeito à manutenção das famílias, que, daí em diante, passam a enfrentar sérias dificuldades; e as viúvas sem estarem preparadas para isso, o que é óbvio, vêem-se na direção de suas famílias com o pouco dinheiro que passam a receber a título de pensão previdenciária, quando têm direito a ela.


E essa guerra nas estradas parece não ter fim, com o número de morte e invalidez aumentando a cada fim de semana e feriados, principalmente. Vê-se, todos os dias, a morte de pessoas que desfrutavam de uma vida com bons recursos, depois de terem trilhado por caminhos árduos até conseguirem uma estabilidade financeira e de assumirem a responsabilidade de criar seus filhos. Os locais desses tristes acontecimentos vão do sul ao norte do país, com suas estradas intransitáveis, na sua maioria - salvam-se as estradas administradas por empresas privadas, que cobram preços altos dos usuários para manterem as vias trafegáveis.


O fato é que o Brasil sempre viveu esses problemas das estradas sem condições de tráfego. Vemos com freqüência, em reportagens produzidas pelos meios de comunicação, estradas que não permitem um rodar normal dos veículos, que ficam atolados na lama, que os prende por horas ou mesmo dias, até que o tempo melhore ou que recebam alguma forma de socorro.


Os presidentes do Brasil, em todos os tempos, deram mostra de que desconhecem esse caos de nossas estradas e das mortes ceifadas por elas. Os políticos brasileiros de um modo geral, parecem que só tomam conhecimentos das precárias condições de nossas estradas durante o período de campanha eleitoral, quando se mostram conhecedores profundos desses problemas, bem como sabem o que deve ser feito para melhorá-las. Passadas as eleições, com elas o interesse dos políticos em dar estradas dignas dos brasileiros logo fica no passado.


E os políticos seguem no seu caminho em busca dos votos e de tudo o que possa aumentar os seus já elevados salários, pelo pouco que fazem. E o presidente Lula segue ignorando tudo o que acontece em seu redor (e está com alta cotação com o eleitorado!). Os políticos não se cansam de causar-nos vergonha pelos seus atos, como acontece com vários governadores, que estão envolvidos em escândalos financeiros, como é o caso da governadora Ieda, do Rio Grande do Sul, no caso Detran; o caso que envolve o governador Requião do Paraná, que empurrou goela abaixo dos paranaenses a nomeação de um irmão seu para o Tribunal de Contas, com o “singelo” salário de 22 mil reais por mês.


O governador do Distrito Federal (este, merece maior destaque), o “famoso” Arruda, e os políticos comparsas seus, que se apoderaram, de forma criminosa, como vimos pela televisão, de altas quantias de dinheiro, que escondiam nos bolsos, em valises, nas cuecas e até nas meias. Aos políticos interessam muito os bancos e as empreiteiras. E o Poder Judiciário, onde está? Será que o povo brasileiro merece tanto descaso, tanta impunidade? O certo é que, nas próximas eleições, eu não darei o meu voto para nenhum desses políticos: anularei o meu voto. E ponto final.


20/12/2009

TOM ZÉ & A REVISTA CULT



por Pedro Luso de Carvalho


A revista Cult apresentou no seu nº 125, junho/2008, uma interessante entrevista com o cantor e compositor Tom Zé, na qual o músico falou de seu primeiro álbum gratuito na Internet. Mas, em se tratando desse tropicalista com tantos anos de estrada, não se poderia esperar que se limitasse a falar sobre o seu novo disco - o primeiro a lançar em formato virtual -, o inteligente Tom Zé, que por deleito pratica jardinagem no condomínio em que mora em São Paulo, quando não está envolvido com a música, falou de muitas coisas à revista, com sua peculiar desenvoltura e simpatia.


Vejamos, pois, o que Tom Zé disse a Cult, depois que o entrevistador falou-lhe dos formatos pelos quais ele passou na sua carreira: “Sim, mas a Internet era um lugar inimaginável. Quando era pequeno, uma lâmpada elétrica era um fato de um alumbramento tal que me lembro ainda hoje o dia que vi, na casa do farmacêutico de Irará, Seu Chaves, a lâmpada nua. Uma Lâmpada só era um objeto tão totêmico que não tinha nada para vestir uma lâmpada. Fiquei olhando aqueles raios, a cor, o tipo de luz era completamente diferente, uma luz que não tinha fonte. Enfim tudo da civilização foi um alumbramento e um encanto. Nos anos 1960, o único computador que tinha em São Paulo era do tamanho dessa sala, no Sesi. A pessoa para trabalhar botava um guarda-pó porque o bicho soltava algumas faíscas. Rapaz, são tantas coisas tão diferentes para quem veio da Idade Média como eu”.


Nas três páginas da entrevista da Cult, Tom Zé filosofou à vontade. Falou da falta de ética nos dias de hoje, no prazer que lhe dá fazer música nos dias atuais, de sua participação no novo disco dos Mutantes, com Sérgio Dias, e muito mais, como, por exemplo, na resposta que deu à revista sobre se ainda existem as gravadoras, no sentido clássico: “As grandes gravadoras - responde Tom Zé - não existem mais. As pessoas que trabalham com música ainda estão muito presas ao conceito de gravadora. A indústria acabou. Se um artista não consegue montar uma banda, gravar suas músicas e distribuí-las pela Internet é porque ele não foi feito para isso”.


15/12/2009

THEODORE E FRANKLIN ROOSEVELT




por Pedro Luso de Carvalho



A atuação de quem preside os Estados Unidos (EUA) sempre foi, em todos os tempos, muito importante para os demais países, sejam eles ricos ou pobres; e, por sua importância, nunca será demais sabermos um pouco mais da política e dos políticos norte-americanos. Daí ter pensado em colocar em cena dois de seus presidentes, que tinham o mesmo sobrenome, quais sejam: Theodore “Teddy” Roosevelt e Franklin Delano Roosevelt.


Vejamos, pois, o que dizem sobre o paralelismo entre os presidentes Theodore e Franklin, os escritores John e Alice Durand, em sua obra Pictorial History of American Presidents, Barnes Nova York, 1969: "No dia 6 de setembro de 1901, o presidente dos E.U.A. William McKinley, era alvejado a tiros, em Bufalo, por um anarquista. Oito dias depois, morria. Sucedia-lhe no cargo, o dinâmico vice-presidente Theodore Roosevelt, de 43 anos. A presidência de Theodore Roosevelt (1901-09) identifica-se com o que Frederick L. Allen chamou de a revolta da consciência americana”.


Diz Allen, que “Em fevereiro de 1902, o ministro da Justiça de Roosevelt iniciou uma ação judiciária para obter a dissolução da Northen Security Company, baseado na Lei Sherman contra os trustes... Tratava-se de uma sociedade financeira fundada por J. Pierpont Morgan e Edward H. Harriman...” Nos anos que se sucederam, entre o presidente e a plutocracia foi mantida sem muita convicção. Theodore Roosevelt continuava sendo um presidente republicano e não podia afastar-se demais da linha de um partido que contava, entre seus adeptos, com a grande maioria dos ricos e privilegiados.


Mais alguns dados sobre Theodore Roosevelt: Além de ter sido eleito para a Assembléia do Estado de Nova York, chefiou os Rough Riders na guerra hispano-americana, assumiu o cargo de governado do esta de Nova York, foi eleito vice-presidente dos Estado Unidos, e, nessa condição, torna-se 26º presidente dos EUA, com a morte (assassinado) do presidente Mackinley; foi reeleito para a presidência, em 1904.

Franklin Delano Roosevelt, que integrou o Partido Democrata, foi 32° Presidente dos Estados Unidos da América, e o primeiro presidente reeleito mais de duas vezes; foi eleito em 1933 e reeleito em 1936, 1940 e 1944. Um dos feitos mais importantes de seu governo foi a restauração econômica dos Estados Unidos (New Deal), após a grave crise econômica de 1929-1932, iniciada com o crash da Bolsa de Nova York, a chamada Quinta-feira Negra (24 de outubro de 1929). Também foi no seu governo que os EUA passou a tomar parte na Segunda Guerra Mundial, a partir de 1941, após o ataque ao Pearl Harbor, na qual foi um dos principais responsáveis pela vitória dos aliados.


Franklin Delano Roosevelt teve muito em comum com Theodore “Teddy” Roosevelt. Ambos nasceram numa família muito rica; ambos tiveram, primeiramente, uma cadeira na Assembléia do Estado, e depois o subsecretariado da Marinha; ambos foram nomeados candidatos à vice-presidência (Teddy foi eleito, Franklin D. Roosevelt não). Ambos foram governadores de Nova York antes de se tornarem presidentes dos Estados Unidos.


Como reformadores e expoentes de revoluções econômicas e sociais (Teddy com seu Square Deal (Conduta Leal), Franklin D. Roosevelt com seu New Deal (Nova Conduta), ambos foram detestados ou adorados. O paralelismo continua na aversão de ambos, pelo que Teddy chamou de os ‘malfeitores da grande finança’ e Franklin ‘mercadores a escorraçar do tempo’...


Sem dúvida, o mais importante deles foi Franklin Delano Roosevelt, que mesmo depois de morto, é amado ou detestado, e os historiadores ainda discordam em seus julgamentos: para Arthur Schlesinger Jr., por exemplo, ele é o terceiro presidente estadunidense entre os grandes presidentes, depois de Abraham Lincoln e George Washington. Para Harry E. Barnes e Charles A. Beard, foi apenas um monumental charlatão".


Theodoro Roosevelt nasceu em 1858 na cidade de Nova York, e morreu em 6 de janeiro de 1919, na cidade em que nasceu, Nova York. Franklin Delano Roosevelt nasceu em 30 de Janeiro de 1882, em Nova York e morreu em 12 de Abril de 1945, em Warm Springs, no Estado da Georgia.




REFERÊNCIAS:
DURAND, John e Alice. Pictorial History of American Presidents. Barnes Nova York, 1969.
THOMAS, Henry e Dana Lee. Vida de Estadistas Americanos. Trad. Alzira Vallandro. Porto Alegre: Editora Globo, 1956.

06/12/2009

QUEM FOI LENIN? - TERCEIRA PARTE




por Pedro Luso de Carvalho



A família Ulianov muda-se para Moscou no outono de 1893; Lenin resolve morar sozinho em São Petersburgo. Aí, nos seus primeiros anos, Lenin diz da importância de pensar com clareza para não se desviar do caminho por falsas tendências. As grandes distâncias russas resultam num isolamento entre as cidades mais importantes, e também com o interior do seu imenso território. Quebrar esse isolamento é o propósito de Lenin para ir ao encontro das personalidades importantes da social-democracia internacional. Para Lenin, é imperioso saber como se comporta o desenvolvimento do marxismo no Ocidente. Então, ainda muito jovem, vê-se no exterior, na sua primeira experiência. Na Suíça, encontra-se com Pleklanov; em Berlim, com Karl Liebknecht; em Paris, com o genro de Karl Marx, Paul Lafargue.


Assim Lenin foi descrito pelo bolchevista Potresov, em suas Memórias, por ocasião dessa viagem ao exterior: "rosto emagrecido, a cabeça quase completamente calva, apenas com alguns tufos de cabelo, uma pequena barba avermelhada. Sob as sobrancelhas os olhos entreabertos pareciam astutos e penetrantes. Os amigos brincavam, dizendo que nascera velho e calvo e que pelo aspecto físico um típico negociante da Rússia setentrional".


Após ter retornado a São Petersburgo, Lenin tenta delinear a União de Luta pela Emancipação da Classe Operária, que passa a atuar em cerca de vinte círculos marxistas; os locais escolhidos para essa ação, para a divulgação dos primeiros lineamentos marxistas entre os trabalhadores, por meio de manifestos e panfletos, são os centros industriais russos. Nessa época, ou seja, em meados de 1890, Vladimir Lenin não é ainda o líder entre os marxista em São Petersburgo; mas já é importante no círculo dirigente, composto de quarenta pessoas.


Em dezembro de 1895, são presos todos os membros do círculo dirigentes: o descuido de um jovem ativista, leva a polícia a prendê-lo; e encontra com ele as provas do primeiro número do jornal Classe Operária, cuja impressão era aguardada. O prisioneiro logo aponta à polícia os membros da organização. Lenin é conduzido ao cárcere da Rua Spalernaia, onde fica recluso por pouco mais mais de um ano. Nesse período, mantem-se ativo com suas leituras e correspondência com companheiros da prisão e os que se encontram fora dela. Entre os inocentes comunicados que escreve da prisão, Lenin dá instruções, pede notícias, redige proclamações e manifestos. Para evitar a depressão e outros problemas de saúde, Vladimir exercita-se.


Sobre a prisão de Lenin, Gerard Walter escreve: “Para o frio planejador que foi Lenin, até a prisão oferecia vantagens. Ele a considerava uma pausa útil para voltar à boa forma. Tinha problemas com o estômago, e jamais tivera tempo para tratar-se quando em liberdade. Agora finalmente seguiria uma férrea dieta, que antes lhe fora aconselhada por um médico suíço. Era, muitas vezes, atormentado por problemas com os dentes; consegue, na prisão, licença para tratá-los com um dentista particular. Longas horas de sono, ginástica e, contra o tédio, leituras recreativas, traduções e um trabalho obrigatório: a elaboração de um de seus livros fundamentais: O desenvolvimento do Capitalismo na Rússia. Podia ler e escrever à vontade na prisão, e ainda pedir livros da biblioteca. Recluso, não lhe faltam calma e reflexão. No fim da pena Lenin disse, entre brincalhão e sério: 'Que pena, não pude terminar meu trabalho'”.

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Ainda sobre a prisão e condenação de Lenin, escreve Christofher Hill: “Lenin foi mantido na prisão por mais de um ano, tempo em que continuou a elaborar panfletos e declarações, escrevendo com leite guardado em 'tinteiros' de pão fáceis de engolir quando necessário. Sentia-se, entretanto, muito solitário. Sua futura esposa, Nadiejda Constantinovna Krupskaia, encontramo-la, pela primeira vez, em pé num determinado ponto da calçada fora da prisão, horas à espera de que Lenin pudesse olhá-la de relance através de uma janela enquanto os prisioneiros faziam exercício”.


“ Quando a final foi submetido a julgamento – diz Hill -, Lenin viu-se condenado a três anos de exílio na Sibéria, Chuchenskoie, perto de Minusinski, na Província de Jenissei. A não ser pelo clima adverso, e pelo fato de uma fuga tornar-se impraticável em região tão desolada e inacessível, as condições desse degredo não eram demasiado severas: Lenin ali pode receber livros para estudar, escreveu muita coisa, e completou O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia. Uma vez por semana podia livremente falar com os camponeses sobre questões jurídicas. E maio de 1898 viu chegar Krupskaia, que também fora condenada ao exílio e com quem se casou mesmo na Sibéria”.


Sobre a companheira de Lenin, escreve Curzio Malaparte: Nadejda Konstantinovna Krupskaia teve, na vida de Lenin singular importância: representa uma parte que surpreende até mesmo os que vêem em Lenin o Gêngis Khan da revolução proletária. Mulher enérgica e muito inteligente, de olhos claros e salientes, olhar doce e lento lábios grossos e moles, espírito claro e limitado, caráter paciente e resoluto, Nadejda Konstantinovna Krupskaia não foi apenas a secretária do revolucionário profissional, mas sua colaboradora devotada e incansável, mulher no sentido mais burguês do termo, aquela que, tanto em Chutchenskoie [Sibéria], como em Londres, Paris e Zurique, nos tristes anos de exílio, ou nos trágicos dias da revolução, zelará pela saúde de Lenin, pelo seu trabalho, descanso, suas distrações, e lhe proporcionará um ambiente doméstico simples mas tranqüilo, num clima de confiança e tranquilidade familiar”.


L. Fotieva (Lydia Alexandrovna Fotieva), autora do livro traduzido do russo para o espanhol com o título De la vida de Lenin, e depois traduzido para o português, por Zuleika Alambert, com o título de Lenin, escreve: “Antes de minha chegada a Genebra, não tinha uma idéia exata do caráter e do tamanho das divergências entre os bolchevistas e os menchevistas. No entanto, mesmo o pouco que chegava até nós fazia com que inclinássemos para os bolchevistas. Assim é que, quando cheguei a Genebra, senti todas as minhas simpatias voltadas para os bolchevistas – mais por intuição, que por compreensão absoluta – e a seguir incorporei-me ao seu círculo. Somente em Genebra, quando comecei a ler ávidamente a literatura do Partido, sobretudo o livro de Lenin Um Passo Adiante, Dois Passos Atrás, e conversando com os camaradas de mais idade, compreendi plenamente toda a profundidade e antagonismo das divergência entre Bolchevistas e Menchevistas”.


Sobre a vida de Lenin com sua mulher, em Genebra, diz L. Fotieva: “Foi nesse ambiente complicado, tenso e difícil em que me encontrei ao incorporar-me à colônia de emigrados em Genebra, no verão de 1904. Vladimir Ilitch e Nadiejda Constantinovna voltaram logo. Meu encontro com eles produziu-me enorme impressão. Era surpreendente a simplicidade e afabilidade deles. Era surpreendente a singular perspicácia de Vladimir Ilitch. Diziam que lia até o fundo da alma das pessoas”. L. Fotieva diz ainda, que, ao trabalhar com Nadiejda sentiu por ela um grande afeto. Afirma também que Nadiejda era uma pessoa equilibrada, tranqüila e cordial; e que possuía conhecimentos teóricos e grande experiência do trabalho partidário.


No próximo artigo sobre a vida de Lenin [QUEM FOI LENIN – QUARTA PARTE], escreverei ainda sobre fatos políticos e fatos que envolveram Lenin e Nadiejda, no período do exílio do casal, que antecedem à sua volta à Rússia. Para a leitura do primeiro artigo, sobre a vida de Vladimir Ilitch Ulianov Lenin , clique em QUEM FOI LENIN? - QUARTA PARTE.





REFERÊNCIAS:
WALTER, Gerard. Lenin. Paris: Edições Albin Michel, 1971.
MALAPARTE, Curzio. Lenin, Boa Criatura. Itália: ed. Vallechi, 1962.
PALTRINIERE, Marisa. Lenin. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1975.
FOTIEVA, L. Lenin. Trad. de Zuleika Alambert. São Paulo: Editora Fulgor, 1963.
HILL, Christofher. Lenin e a Revolução Russa'. Trad. De Geir Campos. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1963.

01/12/2009

JORGE LUIS BORGES & ANDRÉ MAUROIS




por Pedro Luso de Carvalho



O último livro foi André Maurois foi De Aragon a Montherlant. Estava escrito quando ele morreu em outubro de 1967. Foi editado em Paris após sua morte. A obra, que teve grande êxito nas livrarias, completa a trilogia dos dois primeiros volumes De Proust a Camus e De Gide a Sarte. A trilogia foi publicada no Brasil pela editora Nova Fronteira. De Aragon a Montherlant foi traduzido por Paulo Hecker Filho. Nesse terceiro volume, André Maurois estruturou o livro com ensaios curtos abrangendo temas variados, não mais se limitando a escrever sobre vida e obra dos maiores escritores franceses do século XX, como fizera nos dois primeiros tomos.


Nesse terceiro volume, André Maurois publicou ensaios da melhor qualidade sobre importantes escritores – não apenas franceses - , dentre eles, Borges, com o título JORGE LUÍS BORGES – LABIRINTOS. Aí, Maurois diz que Borges é um grande escritor, que se restringiu a pequenos ensaios. E acrescenta: esses ensaios bastam para afirmá-lo “grande”; justificando o por quê dessa qualidade: “pelo brilho duma inteligência impressionante, a riqueza de invenção e o estilo cerrado, quase matemático”.


Prossegue Maurois: “Argentino de nascença e temperamento, mas nutrido de literatura universal. Borges não tem pátria espiritual. Cria, fora do espaço e do tempo, mundos imaginários e simbólicos. É um sinal da sua importância que só possa evocar a seu propósito obras estranhas e belas. Aparenta-se com Kafka, Poe, às vezes Wells, sempre Valéry pela brusca projeção de seus paradoxos dentro do que chamaram 'sua metafísica privada'”.


Adiante, Maurois diz que são inumeráveis e inesperadas as fontes de Borges. E mais: “Borges leu tudo, e especialmente o que ninguém lê mais: os cabalistas, os gregos alexandrinos, os filósofos da Idade Média. Sua erudição não é profunda; ele não lhe pede senão clarões e idéias; mas é vasta. Um exemplo: Pascal escreveu: A natureza é uma esfera infinita em que o centro está em toda parte, a circunferência em nenhuma. Borges parte à caça dessa metáfora através dos séculos. Acha em Giordano Bruno (1584): Podemos afirmar com certeza que o universo é todo centro, ou que o centro do universo está em toda parte e sua circunferência em nenhuma parte. Mas Giordano Bruno podia ter lido num teólogo francês do século XII, Alain de Lille, uma fórmula extraída do Corpus Hermeticum (século III): Deus é uma esfera inteligível cujo centro está em toda parte a circunferência em nenhuma parte. Tais pesquisas, levadas a efeito entre os chineses como entre os árabes ou os egípcios, encantam Borges e lhe oferecem seguidos assuntos de contos”.


Muitos dos mestres de Borges são ingleses. Nutre profunda admiração por Wells, que escreveu um romance que “representa simbolicamente traços inerentes a todos os destinos humanos. Cada obra grande e duradoura deve ser ambígua, diz Borges, pois é um espelho que faz conhecer os traços do leitor, embora o autor deva parecer ignorar o significado da sua obra – o que constitui uma descrição excelente da arte do próprio Borges. E é Borges quem diz: Deus não deve fazer teologia; o escritor não deve anular com raciocínios humanos a fé que a arte exige de nós”.

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Borges, como a Wells admira Poe e Chesterton . “Poe escreveu contos perfeitos de horror fantástico e inventou a narração policial, mas nunca combinou os dois gêneros” – diz Maurois -, e acrescenta que Chesterton, por sua vez, tentou e realizou com felicidade essa façanha. “Se Chesterton soube se defender de Poe ou Kafka havia na matéria de que seu eu estava feito algo que tendia ao pesadelo”. Kafka, a seu turno – diz Maurois-, é um precursor direto de Borges. Castelo podia pertencer a Borges, embora esse dele tivesse feito um conto de dez páginas, tanto por altaneira preguiça quanto pelo cuidado da perfeição”. Quando aos precursores de Kafka, a erudição de Borges – ressalta Maurois - se compraz em achá-los em Zenão de Eléia, em Kierkegaard, em Robert Browning. “Em cada um desses autores há algo de Kafka, mas se esse não tivesse escrito, ninguém se aperceberia disso”. De onde este paradoxo bem borgesiano, pergunta Maurois: “Cada escritor cria seus precursores”.


Maurois faz referência a ao inglês Dunne como sendo outro dos escritores que inspiraram Borges. E diz que Donne escreveu um curioso livro “sobre o Tempo, onde sustenta que o passado, o presente e o futuro existem simultâneamente, como o provam nossos sonhos, (Schopenhauer, nota Borges, já escreveu que a vida e os sonhos são páginas dum mesmo livro: lê-las em ordem é viver, folheá-las é sonhar). Na morte reencontraremos todos os instantes de nossa vida e os combinaremos livremente como num sonho. Deus, nossos amigos e Shakespeare colaborarão conosco. Nada mais agrada a Borges que jogar assim com o espírito, o sonho, o espaço e o tempo”.


È mais extenso esse ensaio de Maurois sobre a obra de Borges. Do ensaio, recolhi as partes mais interessantes, acredito. Mas, antes do ponto final, acho importante abordar a forma de Borges, que segundo Maurois lembra a de Swift, com “A mesma gravidade no absurdo, a mesma precisão no detalhe. Para expor uma descoberta impossível, empregará o tom do erudito minucioso e pedante, mesclará escritos imaginários com fontes autorizadas e reais. Antes do que escrever um livro inteiro, o que o entediaria, analisa um livro que nunca existiu. Porque desenvolver em quinhentas páginas – pergunta Borges – uma idéia cuja perfeita exposição oral demoraria alguns minutos?'”


Maurois dá realce a outros contos de Borges, que “são parábolas misteriosas e nunca explícitas; outros ainda, relatos policiais à maneira de Chesterton. A trama persiste toda intelectual. O criminoso emprega o seu conhecimento de detetive. É Dupin contra Dupin, ou Maigret contra Maigret . Uma das 'ficções' de Borges é a insaciável procura dum ser através dos reflexos, apenas perceptíveis, que deixou em outras pessoas. Ou então, por ter o condenado notado que as previsões nunca coincidem com as realidades, imagina as circunstâncias da sua morte. Transformadas assim em previsões, deixarão de ser realidades”. Maurois diz que essas invenções de Borges são mais extraordinárias que as de Poe, escritas num estilo hábil e puro que aliás cumpre relacionar com o de Poe, “que gerou Budelaire, que gerou Mallarmé, que gerou Valéry, que gerou Borges”.


Já no final do seu ensaio, Maurois lembra do parentesco do estilo de Borges com o de Valéry, pelo rigor; às vezes, com Flaubert, pelo acúmulo de passados imperfeitos; com Saint-John Perse, pela estranheza de adjetivos. Mas, não deixa de ressalvar que é altamente original o estilo de Borges, o mesmo ocorrendo com seu pensamento. Termina o ensaio com o que diz Borges sobre os metafísicos de Tlön: Não buscam a verdade, nem mesmo a verossimilhança. Pensam que a metafísica é um ramo da literatura fantástica. O que define bem a grandeza e a arte de Borges – conclui Maurois.