23/11/2009

NAQUELA NOITE NO BAR / PEDRO LUSO




            NAQUELA NOITE NO BAR              
                         
                                   por Pedro Luso de Carvalho




Luz difusa
sobre a mesa do bar.
Em torno
do copo vazio,
estranhas figuras
avivam
lembranças.



Silhuetas de
casais - sussurros
no escuro
do bar.
Fugazes encontros
eternizam prazer
e mágoas.



Ondulam sombras
nas paredes
do bar  -
e ouço a música 
sincopada
de Jobim.





16/11/2009

[Editora Hedra] RUI BARBOSA - Oração aos Moços





por Pedro Luso de Carvalho



Oração aos Moços foi a última grande criação de Rui Barbosa; para o críticos, a sua obra-prima. Rui escreveu-a para homenagear os formandos da Faculdade de Direito de São Paulo, da turma de 1920, dos quais foi paraninfo. Enfermo, Rui não pode comparecer à solenidade de formatura; o seu discurso foi lido pelo professor Reinaldo Porchat. Escreveu Rui, como intróito da sua peça de oratória: “Não quis Deus que os meus cinqüenta anos de consagração ao direito viessem a receber no templo do seu ensino em S. Paulo o selo de uma grande benção, associando-se hoje com a vossa admissão ao nosso sacerdócio, na solenidade imponente dos votos em que o ides esposar”.


Essa obra – Oração aos Moços -, veio coroar o trabalho realizado por mais de cinqüenta anos, por esse homem brilhante, exemplo de dedicação ao trabalho, que foi uma de suas tantas virtudes; por esse homem honrado e de incomparável erudição; por esse homem que teve por missão a luta contra a Monarquia, para, em seu lugar, fazer vingar a República; por esse homem que não se cansou de defender o povo escravo, até que fosse proclamada a abolição da escravatura.


Trata-se de uma das mais brilhantes reflexões produzidas pelo jurista sobre o papel do magistrado e a missão do advogado. O autor faz um balanço de sua vida como advogado, jornalista e político, como exemplo para as novas gerações. Disse Gladstone Chaves de Melo: “Oração aos moços é o canto do cisne de Rui Barbosa, é a mais realizada de suas obras, a que com maior autenticidade, creio, nos dá a medida e o tom de seu estilo. Disse eu alhures que é ela a obra trabalhada da língua portuguesa."


Para essa edição de Oração aos Moços, fui convidado pela Editora HEDRA, de São Paulo, para escrever a introdução da obra; e não poderia ter declinado dessa honra. Agora, quando o livro foi publicado, neste segundo semestre de 2009, pude sentir a indizível satisfação ao ver escrito na ficha técnica da obra o nome de Pedro Luso; admirador, não apenas de Oração aos Moços, mas de grande parte da obra de Rui Barbosa, não poderia ter tido outra reação que a de júbilo. Essa Introdução, que toma 15 páginas da obra Oração aos Moços, deu-me a prazerosa sensação de ver aí o meu nome ligado ao nome de Rui, hoje Patrono dos Advogados do Brasil e do Senado da República.


Ficha técnica da obra:
Autor – RUI BARBOSA
Título – ORAÇÃO AOS MOÇOS
Organização – MARCELO MÓDOLO
Introdução – PEDRO LUSO


10/11/2009

RILKE – UM POETA ALÉM DO SEU TEMPO





por Pedro Luso de Carvalho



Este é o terceiro texto que escrevo, aqui no Blog Panorama, sobre Rainer Maria Rilke; editei o primeiro em 15.02.2008, com o título de Rainer Maria Rilke & A Religião; o segundo, neste mês, intitulado De Poemas & De Poetas. Então, começo o texto de hoje com alguns dados sobre o escritor, para os que ainda não o conhecem: Rilke foi um escritor de língua alemã, e um dos maiores poetas do século XX. Nasceu em Praga, capital da República Tcheca, em 1875; acometido de leucemia, faleceu num sanatório, na cidade de Montreux, Suíça, no ano de 1926.


Rainer Maria Rilke residiu em Paris por muitos anos; na capital francesa, foi secretário de célebre escultor Rodin. Como escritor, o simbolismo marcou o início de sua carreira; depois, o simbolismo foi substituído pela busca do significado real da arte e da morte, como se vê nas suas obras O livro de horas, 1903; Elegias de Duíno, 1922; Sonetos a Orfeu, 1923; Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, escritos entre 1904 a 1910. Rilke ficou largamente no Brasil com o sucesso obtido por suas obras: Cartas a um jovem poeta, Elegias de Duíno, Canção de amor, e Morte de Cristóvão Rilke.


J.M. Ibañez Langlois escreveu uma interessante obra crítica intitulada Rilke, Pound, Neruda, com o subtítulo Três Mestres da Poesia Contemporânea (Editora Nerman, São Paulo). Nesse ensaio, referindo-se a Rilke, disse serem os três poetas, possivelmente, os mais importantes da poesia contemporânea. José Miguel Ibañez Langlois, nasceu em Santiago do Chile em 1936; doutorou-se em Filosofia pelas Universidades de Madri e San Juan de Letrán, Roma, Itália. É professor titular da cadeira de Literatura da Universidade do Chile. Suas obras de Crítica Literária são publicadas na América do Sul, nos Estados Unidos e na Europa.


Diz J.M. Ibañez Langlois, na sua obra sobre os poetas Rilke, Pound e Neruda, que a relação de Rilke com o existencialismo contribui para aproximar-se de nós, pelo menos em parte. E mais, que a “Sua grande poesia , gestadas nos mesmos anos que as grandes novelas de Kafka – também seu conterrâneo - terá uma significância não menor que estas na gênese do pensamento existencial, em Heidegger, Marcel, Jaspers. Assim o precursor das sombrias intuições do aberto, do existir, da angústia, da própria morte, da solidão, do risco, segue se beneficiando, com meio século de posteridade, da vertiginosa atualidade de tais explorações:


Só nós vemos a morte, o animal livre
já tem o seu próprio ocaso atrás de si
e perante si Deus, e quando vai, caminha
pelo eterno, o mesmo que as fontes.
Nunca temos, nem um momento, o puro
espaço à nossa frente, em que as flores
se abrem, intermináveis. Sempre há mundo...


Por outro lado – diz Ibañez Langlois -, sua fama foi tardia. Na Alemanha foi pouco conhecido em vida; na própria França, onde viveu tantos anos, foram conhecidos, por muito tempo, unicamente Alferes e fragmentos de Apontamentos de Malte, traduzidos por Gide. Foi nos anos quarenta que Rilke invadiu boa parte da Europa, e com a Europa, a Espanha, e especialmente a América Espanhola – refere-se Ibañez Langlois à América do Sul -, onde desde então um fervor incondicional o tem acompanhado”.

Rilke dava pouca importância aos acontecimentos de sua época, no que respeita aos sucessos políticos, sociais e bélicos. Negava-se aceitar que o homem de espírito fosse adepto da violência e da improvisação revolucionária. E com relação à poesia, assim se manifestava Rilke: “E a esses jovens obreiros, revolucionários em sua maioria, que saem desorientados dos cárceres do Estado e que se perdem na literatura escrevendo poesias de embriagados..., que dizer-lhes? Como levantar seu coração desesperado, como modelar sua vontade disforme que, ante a força dos acontecimentos, adquiriu um caráter estranho e não próprio e que agora os alenta como uma potência alheia cujas propriedades desconhecem?”


Para Rilke, o problema humano, social ou político não era o que o preocupava, mas sim, como diz Ibañez Langlois, era o próprio homem em sua essência o enfermo, era o homem que se havia tornado insondável, obscuro. E é Rilke quem assim se expressa:


“O homem desta guerra e todo o contemporâneo deste homem, eu mesmo, todos me parecem tão separados do mundo da natureza! Relacionar-se com um campo, com a graça de uma tarde, parecia-me arbitrário e falso, pois que saberiam a árvore, o campo, e a paisagem da tarde sobre esse homem infeliz, devastador e assassino? Mas sempre existe uma conexão inexprimível entre um homem que trabalha e cria em paz e a natureza, ocupada santa e radicalmente.”


Ibañez Langlois escreve que “As pátrias de Rilke não são mais precisas que sua circunscrição temporal. Nascido em Praga, na Tcheco-Eslováquia do Império austro-húngaro, viajante de toda a Europa com centro em Paris, falecido na Suíça, foi cidadão da periferia alemã e exemplar extremo do europeísmo anterior à primeira guerra. Não se sentiu tcheco, mesmo sendo o eslavo uma categoria essencial de sua pessoa e de sua obra. Rilke, segundo ele mesmo, não pode ser alheio à essência alemã, pois está inserido em sua linguagem até a raiz; porém o alemão somente lhe provoca “estranheza e moléstia”, e o austríaco - “a insinceridade como situação” - parece-lhe “intolerável”. “Como eu – diz Rilke – eu cujo coração tem sido formado pela Rússia, França, Itália, Espanha, pelos desertos e pela Bíblia, vou poder encontrar harmonia com os que vociferam aqui ao meu redor? Basta!.”


Escreveu J.M. Ibañez Langlois, na obra citada: “A tensão criadora entre vida e poesia, entre arte e realidade, ativa em todo o grande escritor, atingem em Rainer Maria Rilke uma profundidade limite e uma autoconsciência que poucas vezes tem ocorrido na história literária. Somente nomes como Goethe, ou Rimbaud, Proust ou Pond poderiam ser referências adequadas para o caso”. Vemos, pois, que muitos são os motivos para lermos Rilke, e, passado algum tempo, para fazermos releituras - possivelmente, encontraremos novas riquezas, que passaram despercebidas nos desvãos de suas linhas.




REFERÊNCIAS:
LANGLOIS, Ibáñez, J. M. Rilke, Pound, Neruda. Três Mestres da Poesia Contemporânea. Tradução de Antonio José de Almeida Meirelles. São Paulo: Editora Nerman, 199?
KUSCHEL, Karl-Josef. Os Escritores e as Escrituras. Tradução de Maurício Cardoso. São Paulo: Edições Loyola, 1999.

02/11/2009

DE POEMAS & DE POETAS





por Pedro Luso de Carvalho



Desde a segunda metade do século XX, fala-se que o futuro da literatura é, no mínimo, incerto, para os menos pessimistas; e, para outros, que se dizem 'realistas', não há salvação para a literatura, é apenas uma questão de tempo, afirmam. Esse vaticínio é feito também em relação à poesia, que, nesse mister, mostra-se mais debilitada em relação à obra ficcional em prosa; pesam, sobre a poesia, alguns elementos negativos a mais, se comparados ao romance, ao conto e à crônica, que não são assim tão funestos, como, por exemplo, o mercado editorial para os livros de poemas, que está cada vez mais fechado por falta de interesse na aquisição dessas obras; e os motivos que levam a isso estão relacionados com o desinteresse das autoridades públicas da área do ensino em incluir a poesia no currículo escolar, por um lado, e pelo elevado preço dos livros, por outro lado – para ficarmos apenas nesses dois elementos.


Existem outros componentes que contribuem para debilitar a saúde dessa velha senhora, a poesia: uma delas é atração que exerce nas pessoas, desde muito cedo - para alguns jovens estudantes, ou mesmo para outros que estão fora das classes escolares -; aventuram-se a escrever poemas, sem antes buscar auxílio nos livros ou na escola; tornam-se adultos e seguem escrevendo, sem o amparo técnico necessário, já que, sabemos, a inspiração constitui-se apenas num dos elementos para a criação da obra poética; mais alguns componentes, que causam prejuízo à produção poética de boa qualidade, tais como a pressa em escrever grande quantidade de poemas em curto espaço de tempo, bem como a idade da para estar-se 'preparado' para escrever bons poemas - Ferreira Gullar escreve um livro de poema a cada dez anos; Edgar Allan Poe levou dez anos para considerar concluído o seu magistral poema O Corvo.


Sobre a idade para a pessoa escrever versos, diz o poeta Rainer Maria Rilke, através de personagem do seu romance Os cadernos de Malte Laurids Brigge, publicado pela editora Novo Século, São Paulo, 2008, com tradução de Lya Luft, págs. 18-19 :


“Acho que eu devia começar a fazer algo, a trabalhar, agora que estou aprendendo a ver. Tenho 28 anos, e praticamente não aconteceu nada. Vamos recordar: escrevi um ensaio sobre Carpaccio, que é ruim, um drama chamado O casamento que pretende provar algo falso com meios ambíguos, e versos. Ah, mas versos significam muito pouco se escritos cedo. Devia-se esperar, reunir sentido e doçura numa vida inteira, se possível bem longa, e depois, bem no fim, talvez se conseguissem dez versos bons. Pois versos não são, como as pessoas imaginam, sentimentos (a esses, temos cedo demais) – são experiências. E por causa de um verso é preciso ver muitas cidades, pessoas e coisas, é preciso conhecer bichos, é preciso sentir como voam os pássaros, e saber com que gestos flores diminutas se abrem ao amanhecer”.


Prossegue Rilke, pela fala de seu personagem, dizendo sobre as experiências que se deve ter para escrever versos: “É preciso recordar caminhos em regiões desconhecidas, encontros inesperados, e despedidas que há muito sentíamos chegar – dias da infância, ainda não explicados, os pais que tínhamos de magoar quando nos davam alguma alegria e não a entendíamos (era uma alegria para outra pessoa), doenças de crianças que começam de modo tão singular, com tantas e tão profundas transformações, dias em quartos silenciosos e isolados, e manhãs no mar, o mar sobretudo, mares, noites de viagem rumorejando no alto e voando com todas as estrelas – e poder pensar em tudo isso ainda não é suficiente. É preciso ter lembranças de muitas noites de amor, nenhuma semelhante à outra, grito de mulheres dando à luz, leves e alvas parturientes adormecidas que se tornavam a fechar”.


O personagem de Rilke termina essa parte de sua fala sobre a necessária experiência para que se possa escrever versos: “ E também é preciso ter estado com moribundos, sentar-se junto aos mortos no quartinho com a janela aberta, e aqueles ruídos intermitentes. E também não basta ter recordações. É preciso saber esquecê-las, quando são muitas, e ter a grande paciência de esperar que retornem por si. Pois as lembranças em si ainda não o são. Só quando se tornarem sangue em nós, olhar e gesto, sem nome, não mais distinguíveis de nós mesmos, só então pode acontecer que numa hora muito rara brote do meio delas a primeira palavra de um poema”.